Quem nos apascentará?

Em 1 de janeiro é celebrado o Dia Mundial da Paz. A Igreja Católica criou essa data em 1967, com a intenção de promover a paz em um contexto de Guerra Fria, intensos conflitos árabe-israelenses e corrida armamentista. Com objetivo semelhante a ONU instituiu em 1981 o Dia Internacional da Paz, estabelecendo o 21 de setembro para consagração da paz e cooperação entre os povos. A paz nos contextos internos das sociedades também é motivo de atenção nesses momentos.

As datas são de um simbolismo que pode até provocar algumas reflexões, mas ficam parecendo inócuas diante de um mundo em que, apesar das distâncias encurtadas pela tecnologia e virtualidade, se evidenciam inúmeras e aparentemente insuperáveis divisões.

Quando o assunto é divisão social, logo desponta o cansativo tema da polarização ideológica, que captura qualquer conversa e nos incentiva a buscar argumentos que desabonem pessoas que não comungam conosco da mesma fé política. Todavia, além desse tipo de polarização há uma série de clivagens e rupturas que se impõem como desafios não apenas a uma utópica paz mundial, mas que impedem o exercício mínimo de cidadania que forma a base para uma sociedade justa, funcional e produtiva, que só será pacífica como resultado da assimilação de outros fatores.

O francês Émile Durkheim elaborou sua precursora análise sociológica estipulando os modos de coesão social, isto é, os elementos que formam os laços entre indivíduos. Durkheim denominou de solidariedade mecânica o tipo de laço social que ocorre em sociedades mais simples e homogêneas, nas quais as semelhanças de crenças, hábitos e valores unem as pessoas, formando um amálgama com base na intensa identidade cultural; e chamou de solidariedade orgânica as sociedades capitalistas, mais modernas e complexas, imbricadas pela Divisão Social do Trabalho, ou seja, a interdependência na produção de mercadorias e serviços liga os indivíduos, de modo que vale a pena estarmos juntos não porque nos identificamos uns com os outros, mas porque os outros são úteis por produzirem algo de nosso interesse particular.  

Seguindo a tipificação de Durkheim, e também a realidade diante dos nossos olhos, vamos notar que as diferenças podem sugerir alianças enriquecedoras, que ampliam o leque de possibilidades para o desenvolvimento, forjando intrincadas redes de interesses que se estabelecem ao largo de fissuras culturais, ideológicas, econômicas e políticas. É uma imagem muito atraente de dinamismo organizacional. Porém, estamos falando do organismo social, que necessita algum grau de coesão para funcionar como um corpo bem articulado. Esse corpo carrega em si uma série de microrganismos que podem contribuir para seu vigor, mas que se agirem em desequilíbrio, se comportando para fortalecer apenas suas colônias em detrimento do corpo que habitam, passam a debilitar o organismo, colocando em xeque o bom funcionamento ou até mesmo a sobrevivência do sistema.

A extrema desigualdade econômica talvez seja a questão mais importante para quem pensa a sociedade brasileira, e é sim algo preocupante, pois quando se torna muito acentuada impõe limitações para o bom convívio social. Não adianta argumentar que enquanto o 1% do topo acumula riqueza a fatia mais baixa também percebe avanços e maior acesso ao consumo. O problema está no distanciamento. Não se deve desprezar as dificuldades encontradas para o funcionamento da democracia quando os cidadãos vivem em mundos completamente distintos, nos quais as pessoas não compartilham realidades similares. Quando a distância entre ricos e pobres os coloca em extremos absolutos, eles passam a não se sentirem mais como semelhantes, e a linguagem bíblica sobre “o próximo” fica só em uma expressão verbal mesmo, para se usar na Igreja – onde nos sentimos muito piedosos – e não na prática, quando ficamos progressivamente indiferentes às dores alheias.

A questão da desigualdade tem sido aproveitada para inflar alguns espectros políticos mais à esquerda, e isso é ruim, pois em geral é meramente demagógico. Por outro lado, esse é um assunto desprezado ou tratado superficialmente por grupos à direita, e isso pode ser até pior. Independentemente da posição que se tome, o tema sempre conduz a uma reflexão sobre meritocracia. E cabe aqui considerar que tal sistema pode ser considerado um incentivo para o progresso e também uma forma de se premiar esforços. Porém, uma análise mais completa exige que relativizemos alguns dos critérios meritocráticos, pois, se os vencedores se considerarem muito acima dos perdedores – afinal, tanto uns como os outros MERECEM A SITUAÇÃO em que vivem – desaparece a empatia em relação aos derrotados do sistema, o que invariavelmente cria uma atmosfera de ressentimento e indiferença mútua. Não é possível alguém acreditar que esse seja o ambiente ideal para a corresponsabilidade social. O ethos meritocrático levado ao extremo resulta em uma sociedade de cada um por si.

Se você despreza o assunto por se achar um liberal esclarecido e defensor do espírito animal capitalista, está precisando estudar como o ícone liberal e vencedor do Nobel de economia, Friedrich Von Hayek, relacionou resultados econômicos, merecimento e moralidade. Hayek afirmou em seu Fundamentos da Liberdade que em uma sociedade livre, renda e riqueza refletem o valor de bens e serviços que oferecemos, mas esse valor é determinado por contingências de recursos e demandas, ou seja, não está relacionado nem ao mérito nem à virtude do indivíduo, nem mesmo à importância moral de sua contribuição. Note como o tema merece atenção que vá além dos argumentos rasos de quem defende “lados” políticos.

Quando dividimos a sociedade em vencedores e perdedores, também precisamos considerar a polarização cultural. Nem me refiro aqui sobre os desafios da imigração contemporânea, que pressionam pautas políticas na Europa e América do Norte. Mais virulento que isso é o identitarismo, que forja os conflitos culturais que atingem todas as sociedades ocidentais desde a década de 1960, iniciando nas regiões citadas e irradiando mundo afora.

As divisões identitárias pautaram as políticas progressistas (esquerda cultural) nas últimas seis décadas. A revolução social esperada – e promovida – por essa gente se estabeleceu por meio da militância em torno das diferenças de gênero, étnicas, geracionais, etc. A velha e fracassada “consciência de classe” ganhou frescor e se expandiu além do terreno econômico para todas as áreas da vida social. Reconhecer-se como excluído passou a ser a nova consciência.  A Teoria Crítica, concebida pelos intelectuais da Escola de Frankfurt, predominou no mundo acadêmico, contaminando toda e qualquer tentativa de formar interpretações ou esforços de conciliação social. Tudo, absolutamente tudo, passou a ser compreendido na base da relação opressor-oprimido.

A própria esquerda perdeu protagonismo em parte por conta da obsessão identitária, pois desviou o foco que tinha nas necessidades do cidadão comum, conduzindo – de acordo com a afiada autocrítica do progressista Mark Lilla – a um distanciamento entre a esquerda e o povo. Embriagaram-se com a exaltação das diferenças, minorias e tudo o que soasse marginal. O problema é que isso ocorreu em detrimento das massas populares – antigo campo preferencial da esquerda.

Em que pese as dificuldades vividas por algumas minorias, o tipo de abordagem envenenou gerações, que passaram a se sentir estranhas em um mundo que não era feito para elas. A identidade cultural que destaca expressões marginais vem permeando tudo, e só tem “lugar de fala” quem prova ser um desprivilegiado. O fetiche pegou. Quem aceitou a premissa acreditou que a única saída é mudar o mundo por completo, pois qualquer tipo de assimilação seria ceder à lógica do opressor. Isso ainda cala muito fundo no imaginário adolescente. E esse apontamento não denota desprezo, mas preocupação, pois é na adolescência que nos preparamos para a vida, e certamente não estaremos confiantes se nos sentirmos completamente inadaptados, tendo que enfrentar um mundo que foi estruturalmente planejado contra nós. Para essa geração, cidadania é uma expressão vazia, senão algo distante demais para ser concebido em uma realidade considerada hostil. A lógica do conflito se impõe e a coesão social é não apenas perdida, mas desprezada.

O sentimento faccioso insuflado pela militância identitária suscitou a reação de outros grupos, que passaram a combater com veemência essa campanha bem engendrada contra os padrões sociais. E reação é o termo mais apropriado, pois o que alavancou os movimentos conservadores nas últimas duas décadas foi a recusa de ficar em silêncio perante as minorias barulhentas que capturavam a atenção para questiúnculas, em nome de combater a moral e os bons costumes, condenando o cidadão comum por um suposto fascismo internalizado.

A temática identitária progressista, que balizou por décadas a produção acadêmica, também alicerçou a formação de gerações de profissionais, orientando políticas públicas, fornecendo argumentos legislativos, preenchendo agendas burocráticas e moldando o vernáculo do debate público. O povo reagiu. A reação veio em peso, mas desarticulada. A reviravolta foi absorvida por compreensível indignação, que por sua vez se tornou o principal combustível para incendiar tudo que confrontasse o comportamento padrão do homem comum.

Desse modo, o identitarismo, que nasceu para dividir, conquistou seu ápice na reação a si mesmo. O anseio por rupturas sociais e políticas também se instalou na reação às causas identitárias, pois se reage a tudo o que foi tocado por essas causas. Como postulou o cientista político alemão Yascha Mounk, o povo não se vê contemplado pela linguagem da democracia moderna – encampada pelo tribalismo identitário – e por isso reage contra as instituições, o Estado de Direito e a própria democracia. Nas palavras do salmista “Um abismo chama outro abismo”. A reação ao divisionismo tem sido mais divisionismo, incapaz até agora de preencher o espaço com algo substancial.

Não pretendo sugerir que as divisões sociais sejam equívocos de percepção. Não. A superfície trincada aponta para fraturas mais profundas na estrutura social. O abismo entre política institucional e a sociedade, por exemplo, é uma realidade muito sólida, sobretudo quando não faltam exemplos de castas bem posicionadas nas instituições, olhando o povo lá de cima, ou nem a isso se dignando. As instituições foram capturadas e modernizadas à revelia da sociedade, e isso é duplamente problemático, pois além de falsear a representatividade, a população desconhece as rotas efetivas de participação. A sociedade encontra-se prostrada, sem saber como dar o primeiro passo no longo caminho para as reformas institucionais que incluam seus valores. Ou seja, o pessoal lá em cima não nos representa, mas nós aqui também não sabemos manejar essa máquina, pois nunca mexemos com isso. Como resultado, a ideia de romper com tudo, de um só golpe, fica parecendo uma saída. Mas não é, pois isso seria uma solução simples para os problemas complexos de uma sociedade cada vez mais atomizada.

As divisões que apontamos aqui – econômicas, culturais, ideológicas e políticas – dificilmente recebem alguma atenção que vise superar os problemas. O que geralmente acontece quando se explicita tais divisões é aparecer gente vociferando contra “os culpados”, exigindo que eles desapareçam, para então superarmos a polarização. Isso é matematicamente correto, pois se eliminarmos quem pensa e age diferente de nós, só ficamos nós, os bons (!). Mas isso não vai acontecer, considerando que para retornarmos à homogeneidade da solidariedade mecânica teríamos que retroagir a um modo de vida primitivo, que ninguém quer. Portanto, se não houver uma guerra de eliminação da qual restem apenas pessoas como nós, seguiremos convivendo – bem ou mal – com pessoas, ideias e práticas diferentes das nossas.

Não sei se conseguiremos superar os desafios colocados para a construção de uma coesão social eficiente. Entretanto, tenho certeza que, se conseguirmos, não será no curto prazo. Afinal, no curto prazo temos eleições, e o longo prazo não existe na política brasileira.

Boa parte da sociedade já se cansou da polarização e deseja que surja algum tipo de consenso mínimo, que não é um pensamento único, mas um espaço de convergência. Porém, a esperança de surgimento desse consenso é toda direcionada para o resultado de um processo de dissenso, que é o eleitoral. É claro que não vai funcionar. As eleições se tornaram momentos de definição existencial, onde jogamos tudo, e sentimos que podemos tudo ganhar ou tudo perder. Quando é assim, a polarização recrudesce, os hiatos se ampliam, as arestas são afiadas.

Essa perspectiva nos aproxima daquilo que Durkheim temia ser a degeneração da solidariedade orgânica, que é o estado de anomia social. Neste estado os laços sociais se desintegram, pois não há mais sentido em seguir regras mínimas de convivência, uma vez que não existe nenhum tipo de identidade entre os indivíduos. Há algum tempo estamos flertando com esse tipo de desorganização. E, ainda assim, a saída projetada de parte a parte é subjugar o adversário em um processo eleitoral.

Eu jamais receitaria uma conciliação entre ideais inconciliáveis. Sei que há princípios que são inegociáveis. Há também espíritos ardilosos que se aproveitam da boa vontade de quem se dispõe a dialogar. Tudo isso deve ser devidamente ponderado. Porém, se o modus operandi continuar sendo investir na divisão social pura e simples, jamais enxergaremos soluções democráticas consistentes, pois se torna natural ver o outro como desprezível ou ameaçador. E o apelo se volta à eliminação de quem for percebido dessa forma.

As lideranças que têm despontado nesse contexto estão, infelizmente, investindo na divisão. A possibilidade que a tecnologia nos proporcionou para que a mensagem seja cada vez mais segmentada, incentiva movimentos e lideranças públicas ao discurso divisionista, falando cada qual com “o seu” povo, lisonjeando este e deplorando o resto. O problema é que isso tem surtido resultado eleitoral, o que é, como tenho insistido, toda a preocupação política neste país.

É difícil trabalhar desviando dos incentivos mais imediatos, que estão centrados nas polarizações. As lideranças públicas devem estar menos dispostas a afagarem seus correligionários e demonizar seus antípodas. E ao fazerem isso também precisam escapar do discurso vazio que desconsidera as diferenças e projeta um equilíbrio igualitário que não existe. Não é questão de ser bonzinho e vender esperança. As oposições seguirão existindo, o que precisamos é de algum grau de coesão que coordene as ideias políticas concorrentes. Sem isso não há chance de superar a paisagem com a qual já estamos nos acostumando, de violência, cooperação minguada, produtividade declinante e cidadania esvaziada.

Ser realista quanto as diferenças, mas não as manipular. Isso demanda muita consciência e preparo de quem quiser liderar rumo a uma sociedade mais coesa e funcional.

Vai ficar pra depois das eleições.

Amir Kanitz é sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM

Politica e falta de educação

Não é novidade que o brasileiro trata mal tudo o que é público. Isso quase já virou parte da identidade nacional. Chegamos até a inverter a lógica sobre como agir no espaço público, de modo que muita gente fica mais à vontade, desleixado, inconveniente e sem limitações na rua, afinal, a rua é pública, o que em português brasileiro significa que “aqui eu faço o que eu quero”.  Ora, o comportamento deve ser justamente o contrário disso. Afinal, existe uma ética que exige mais decoro em público do que no ambiente privado. Mas, por aqui isso ainda não pegou.

Os bens, os espaços, os serviços, enfim, tudo o que é público parece ficar rapidamente encardido pela falta de zelo de um povo que acredita que se é público não é de ninguém, ao passo que pessoas civilizadas já têm incorporada a ideia de que se algo for público é de todos.

São constatações um tanto triviais. E por já estarmos acostumados a isso eu sugiro irmos um pouco além. O nosso relaxamento não se limita ao tratamento dos espaços e bens públicos. Uma coisa pública que também tratamos de qualquer jeito é o debate. Ter um posicionamento, fazer uma reflexão, participar de deliberações, contribuir com alguma solução; fazer essas coisas em relação aos problemas públicos exige pouquíssimo preparo por estas bandas.

Não apenas tratamos de qualquer jeito, como também misturamos de forma indevida tudo o que for de alcance coletivo. O roteirista Antonio Tebet brinca que no Brasil a política é futebol, futebol é religião, e religião é política. Em questões políticas nos dividimos em torcidas e… torcemos, explodindo de alegria com uma vitória eleitoral e nos regozijando com a derrota do adversário. É o limite do nosso engajamento político. O futebol, por sua vez, é algo que levamos a sério, pois temos verdadeira devoção pelo time. E a religião serve muito bem às relações de poder, pois, quando desvirtuada, se apropria da audiência cativa de gente simples e carente para dirigir consciências e votos.

Não temos zelo pelas ideias que afetam a dimensão pública. Nos acostumamos a poluir o caminho que pavimenta as deliberações, daí o mato cresce nos processos decisórios e fazemos algazarra em vez de buscarmos sistematicamente os conhecimentos que orientam ideias e soluções eficientes. O desleixo com a preparação para o debate público é mais um fator que impede a superação de uma cultura inconsequente.

Mas, espere aí, agora as pessoas estão se envolvendo com tudo o que acontece na política, não é mesmo? Sim, mas esse envolvimento tem mantido intacta a lógica de fazer tudo de qualquer jeito, se impondo sem critérios éticos, ignorando princípios básicos e maltratando os limites do razoável.

Por aqui o envolvimento com a coisa pública ainda é concebido como um jogo. Isso por si só não é problema, pois um jogo contém estratégias, técnicas, treino e disciplina, mas não é o caso. O nosso jeito de encarar o jogo é no modo torcida, vibramos com a bola na rede, e se a arbitragem errar a nosso favor, melhor ainda, pois irrita mais o adversário – o choro é livre! Todo o processo para a bola chegar até a rede não é assunto para a torcida. Eu quero ver é gol!

Apesar de relaxados, somos muito práticos com a coisa pública. Queremos que funcione. Ponto. Porém, esse é um pragmatismo um tanto superficial, pois só há práticas eficientes onde também há cultura que sustente essas práticas. E, nunca é demais lembrar que são coisas PÚBLICAS, isto é, são nossas, de nossa responsabilidade – inclusive as ideias – e por isso não é bem uma democracia enquanto apenas ficarmos esperando por resultados que não cultivamos com zelo. Portanto, precisamos participar de processos para então verificarmos os resultados. A questão que quero levantar aqui é a capacitação para participarmos do processo.

Só conseguimos nos capacitar a alguma atividade se a respeitarmos. De outro modo, a nossa relação com ela será imprópria, assim como é a atitude do brasileiro perante o Estado, que se alterna entre dependência, indiferença e hostilidade. Não estou aqui cobrando participação qualificada de quem está apenas sobrevivendo. Mas, espero uma atuação consistente daqueles que estão estavelmente inseridos nas relações produtivas, que possuem laços sociais e educação capaz de proporcionar espaço de participação na vida pública.

Não basta “prestar atenção na política”. Isso não tem método e muito menos formação adequada. Até mesmo porque estar ligado na política hoje em dia significa ter a atenção absorvida pela dinâmica das mídias sociais. Nessas redes a atenção é captada por conteúdos que geram dopamina, acionando medos, paixões e ódios. E você está lá, envolvido compulsivamente na polêmica do dia, acreditando que está por dentro de tudo enquanto é conduzido por um turbilhão que captura a sua atenção para o que é extraordinário. Porém, a política que cria resultados em nossas vidas é feita do ordinário, monótono e complexo processo institucional, onde reagir, comentar e compartilhar tem pouco ou nenhum valor. Neste processo a participação precisa ser qualificada. Isso leva tempo. Um tempo que não dedicamos.

Aí que esbarramos em mais uma deficiência do brasileiro. Não gostamos de estudar. A educação formal só nos interessa quando oferece algum ganho imediato, como um diploma ou aumento no rendimento. Estudamos só se for para ganhar algo com isso. Lima Barreto imortalizou um exemplo dessa mentalidade nas vizinhas do Major Quaresma, que impressionadas com a biblioteca deste, comentaram: “Para que tanto livro, se não é nem bacharel?”.

É um jeito de pensar generalizado neste país, compartilhado até pelos mais preparados, que muitas vezes se orgulham de uma educação puramente técnica e voltada a áreas bem específicas. Para questões públicas, estes mesmos invariavelmente acreditam já estarem prontos, justamente por conta de seu sucesso na atuação privada. E não é bem assim. São atuações que carecem de preparos distintos, embora possam se enriquecer mutuamente se houver uma ponderação adequada.

E se a expectativa for apenas eleitoral não há porque estudar, afinal, o necessário para uma campanha é fazer barulho, deplorar os adversários e se afirmar como a salvação. Como só pensamos em atuar politicamente se for para eleger alguém, as análises e participações na vida pública são absolutamente superficiais e intuitivas, escapando da extensão de conhecimento necessário à compreensão de situações complexas, que apenas afloram no virulento noticiário do dia a dia.

A maioria de nós considera que estamos vendo as coisas com clareza, diferentemente “desse bando de alienados”.  Estamos entendendo tudo, afinal, “os acontecimentos mostram que tudo está muito claro”. Essa falsa percepção não resulta de arrogância ou maldade. Todo ser humano sofre em algum grau com desvios de percepção. Um exemplo é o que a psicologia chama de viés da disponibilidade, que é um tipo de atalho mental muito comum, que nos faz considerar mais os acontecimentos notáveis e fáceis de lembrar, de modo que geralmente pensamos que esses eventos são mais prováveis de ocorrer e também mais decisivos. Por isso há mais medo de morrer em um acidente aéreo do que por engasgamento, embora os fatos mostrem que engasgamentos façam muito mais vítimas fatais. Ou seja, por estarmos inebriados com acontecimentos marcantes como eleições, escândalos, disputas políticas noticiosas e traições, não estamos compreendendo e muito menos participando dos processos mais elementares – burocráticos mesmo – que definem as questões públicas. Estamos longe de compreender o ritmo das instituições, pois somos distraídos por tudo que é polêmico e nos divide.

Como dizia o economista Walter E. Williams, a informação não é sem custo. Por isso nós tendemos a economizar esse custo, substituindo formas mais caras de informação por outras mais baratas. E não estou falando do valor da assinatura de jornal. Me refiro à simplificação que fazemos do entendimento acerca da política. Em vez de estudarmos a sério, com método, absorvendo conteúdos e referências reconhecidamente capazes de nos orientarem por entre a infinidade de informações, preferimos um meio menos custoso. E não custa nada acreditar em vídeos compartilhados nas nossas mídias sociais, ou gastar horas assistindo comentadores alinhados à nossa própria ideologia. Esses comentadores louvam nossas preferências e xingam nossos desafetos – isso tem por objetivo aumentar o número e o tempo das visualizações, e por método despertar medos, paixões e indignação. Não é que eles queiram abrir os teus olhos para fatos, o que eles fazem é não te deixar piscar diante de falas apocalípticas e simplificadoras. É assim que funciona o jogo que tem como finalidade captar atenção e impulsionar compartilhamentos.

Nós vendemos muito barato a nossa atenção. Para ter algo a mais é necessário sair do conforto que é escutar coisas fáceis de se ouvir, que envolvem aprovação, simplicidade e clareza, mas que dificilmente oferecem um retrato fiel da realidade. E a realidade é ao mesmo tempo mais complexa e também mais monótona que a visualizada nas mídias sociais. Estudar significa nos tirar do conforto e irmos além do que já está em nosso imaginário. Lembre-se que, provavelmente, você segue comentaristas que considera muito inteligentes porque as ideias deles são brilhantemente alinhadas às suas.

O pensador iluminista François-Marie Arouet, conhecido pelo seu pseudônimo Voltaire, escreveu que “O povo não lê nada. O povo trabalha seis dias por semana e no sétimo vai ao prostíbulo”. Eu não sou fã de Voltaire, nem acho elegante o modo como ele se expressou aí, porém, dois séculos e meio depois o povo continua sem ler, absorvido por suas atividades cotidianas e por um pouco de lazer. Voltaire não era bobo, sabia que alguns homens capacitados, que saíssem desse ciclo, poderiam mudar paradigmas sociais. Com efeito, os escritos do francês influenciaram muitos processos na Revolução Francesa e Independência Americana. Para o bem ou para o mal, o esclarecimento move a sociedade, não há dúvidas. Mas ainda há muitos homens púbicos que desprezam o conhecimento, alguns até mesmo por valorizarem a mão na massa em detrimento das ideias. São pessoas orgulhosas de serem práticas, mas que na verdade são superficiais apenas. 

O ciclo correto da eficiência é ficar inteligente primeiro e resolver os problemas depois. E sem educação metódica para tratarmos de assuntos públicos vamos continuar querendo fazer valer a boa vontade sem filtros ou modulações deliberativas, sem manejar procedimentos e contemplar processos mais a fundo.

As pessoas que possuem voz em suas empresas, associações, entidades e comunidades precisam desesperadamente de formação rigorosa para a vida pública. E isso é justamente o contrário do que vemos nesse momento, em que a inexperiência virou prova de não ser corrompido, produzir tensões é prova de independência e a inconsistência agora é prova de liberdade de espírito.

Atualmente há muito agito em torno dos problemas públicos, e apenas vontade não vai melhorar a situação. O conhecimento deve permear a ação pública, servindo para dar a essa agitação forma concreta, duradoura, razoável e eficaz.

A política é feita, em parte, das disputas que afloram nas ruas, mas também de processos mais elementares, na infraestrutura das decisões, que demandam um conhecimento institucional que parece não interessar muito nem mesmo a pessoas que desejam se envolver na melhoria da sociedade.

Estudar não é apenas ler ou assistir “conteúdos”. Principalmente se essa atividade for voltada a adquirir argumentos contra adversários – que é um exercício muito mesquinho, embora seja considerado por aí como expressão de inteligência. Estudar precisa de método e esforço organizado, voltado a compreender o que não se compreendia antes. Por isso que o estudo infelizmente não está relacionado às nossas preocupações políticas, pois estudar não se trata de destruir o adversário que está à sua frente, mas de primeiramente destruir a ignorância que está dentro de você.

Precisamos de lideranças formadas para resolver problemas públicos. Acredito que esse tipo de liderança não precisa ser totalmente vocacionada para a política.  Carecemos de profissionais, lideranças da área produtiva que sejam capazes de aplicar suas visões de forma integral na vida de quem os cerca, ampliando suas áreas de atuação. O investimento em conhecimento voltado a questões públicas ganha mais legitimidade e eficiência se for agregado à formação de lideranças nas organizações e empresas. A vivência organizacional e associativa é um laboratório riquíssimo para se entender limites, suscetibilidades e o emaranhado humano que envolve situações que aparentam ser muito práticas, mas que são muito mais profundas.

Não podemos esperar por lideranças públicas. É urgente investir em pessoas que se tornem esses líderes. O principal desafio está em oferecer conhecimento e referências consistentes, pois, de outro modo teremos ideologização de tudo, bem como simplificações que geralmente sugerem um pacote de soluções imediatas, de baixo custo e alto desempenho. Saídas assim não existem na educação e muito menos na política.

As lideranças públicas – não só políticos – capazes de interferir positivamente nos processos decisórios, gerando impactos para as pessoas, não podem ser brutalizadas pelo imediatismo eleitoral ou pela alienação ideológica. Quem lidera precisa fazê-lo com base em inteligência institucional, política e social. Os mais preparados para esse exercício são aqueles que já estão em um meio que investe no capital organizacional.

Todavia, que não nos deixemos levar por uma formação puramente técnica em política, pois o tiro pode sair pela culatra e prejudicar ainda mais a já desacreditada democracia. Em que pese a necessidade de preparação sobre a qual venho insistindo, a política não pode ser de puro domínio de especialistas. Foi justamente a tecnocracia, nas palavras de Michael Sandel, que “tratou várias questões públicas como questões técnicas que estavam além do alcance de cidadãos comuns. Isso restringiu o escopo de argumentação democrática, esvaziou os termos do discurso público e produziu uma sensação crescente de perda de poder”.

Nem a especialização fria, que qualifica o líder para manejar os mecanismos institucionais, nem tampouco aquilo que hoje várias universidades e cursos já disponibilizam, que estudantes façam uma matéria ou outra que lida com temas cívicos ou relacionados à ética. O que urge é a formação de lideranças púbicas que desenvolvam a habilidade de raciocinar e deliberar sobre questões morais e cívicas fundamentais, que por sua vez pautarão as ações concretas e formais apropriadas aos quadros institucionais.

O filósofo grego Epiteto imortalizou a frase “só a educação liberta”. O despreparo para a vida pública é uma bola de ferro presa ao pé da sociedade, nos limitando. Se tudo o que fizermos for nos agitar, apenas nos machucaremos. Quem quiser se libertar desse peso precisa estar bem preparado e conhecer as saídas.

Amir Kanitz é sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM

Ordem e Liberdade

Coisa rara é encontrar análises políticas atuais que não se valham de falsa equivalência, comparando tudo a práticas nazistas ou comunistas. A relação entre ordem e liberdade talvez seja a questão mais maltratada por essas análises.

O argumento nestas linhas é de que o sensível equilíbrio entre ordem e liberdade é base de um anseio humano e da vitalidade social, e que mesmo em uma ordem democrática os controles se ampliam vegetativamente, adquirindo uma legitimidade às vezes desconcertante para os libertários mais aguerridos. Essas ponderações servem a qualquer liderança política que pensa em intervir na sociedade, e que não queira ser maior do que a própria sociedade ou mesmo salvá-la de algum bicho papão.

Sem ordem não há cooperação e, consequentemente, não há sociedade. Sem compartilharmos alguns paradigmas mínimos não teríamos relações produtivas, pois não nos entenderíamos e todo contato se resumiria a conflitos de soma zero, nos quais para alguém ganhar os outros precisam perder. A ordem social é a organização dos interesses privados em consonância com o mutualismo, ou, se preferir, bem comum. Definir o bem comum que é o problema.

A liberdade também é uma necessidade para o avanço social. Sem liberdade o conhecimento não se expande em toda a sua potencialidade. Uma organização social completamente centralizada limita outras organizações e iniciativas, o que consequentemente dificulta o aprimoramento. O pior é que muitas vezes as pessoas desejam o controle em detrimento da liberdade, principalmente em épocas de convulsão social, afinal, nas palavras de Charles Péguy “a tirania é sempre mais bem organizada do que a liberdade”.

Na interação entre ordem e liberdade se forma um conflito que requer equilíbrio, pois, de outro modo, se exige uma escolha paralisante entre ordem ou liberdade, sendo que esta última, sem ordem, decai em um estado hobbesiano de insegurança total.

Todos nós desejamos uma sociedade funcional e próspera. Com a aceitação crescente do modelo democrático se consolidou a ideia de que um sistema social eficaz necessita de uma estrutura legal uniforme, elaborada com inteligência e sempre aperfeiçoada, ou seja, aceitamos a intervenção positiva de quem lidera o sistema, desde que represente a maioria e não despreze as minorias. Isso, apesar de racional, é bem diferente do desenvolvimento orgânico e não-dirigido que teríamos em uma sociedade completamente livre.

A democracia opera com base em planejamentos cuja execução exige um consenso muito maior do que na realidade existe. Se for o Estado a organizar a sociedade, todos os setores serão abrangidos pela “escala social de valores” que orienta a ação do Estado. E isso é muito incerto. Há um falso acordo sobre a conveniência da ação estatal, pois, apesar de aceitarmos essa ação, não há um acordo sobre os fins que o Estado deve atender. Ou seja, em geral acreditamos que o Estado é legítimo para agir por meio de nossos representantes, mas a representação em si é um caminho tortuoso, nem sempre coerente e cada vez mais fragmentado em públicos diversos, isto é, em múltiplas e conflituosas representações.

A ordem perseguida por meio da democracia parece justa, pois cria salvaguardas contra o poder arbitrário. Porém, coloca todos irremediavelmente na órbita do Estado. E o Estado é, nas palavras de Ludwig von Mises, um “aparelho de compulsão e coerção”. A falta do exercício de cooperação voluntária pode perverter o sentido público de responsabilidade, dando origem e também atraindo ideais de bem comum que implicam uma ordem imposta de cima para baixo. O cientista político Francis Fukuyama nos lembra que a engenharia institucional carece não apenas de regras formais, mas abrange o entendimento compartilhado dos comportamentos apropriados que revestem as instituições. A ordem, neste sentido, precisa ser sustentada por crenças e práticas comuns que preenchem as instituições e as ajuda a funcionar. Se o Estado cresce e a sociedade diminui, a ordem não é livre.

Desse modo, quando todas as fricções sociais são relegadas ao tratamento estatal e por este ordenadas, isso nos empobrece, substituindo a organicidade das famílias, organizações locais, fundações privadas, clubes e associações, atraindo-os todos, cada vez mais, para a órbita do Estado. É uma ordem que pretende diminuir conflitos e aumentar coerências – o que é bom – mas tende a uniformizar e submeter a multiplicidade social – o que é ruim.

Para bem compreendermos as dinâmicas que estabelecem a ordem social não é apropriado usar teorias conspiratórias, apesar de ser mais divertido desse jeito. A tendência de ampliação do ordenamento e governança não pode ser reduzida a denunciar “planos de algumas famílias e organizações que dominam o mundo”. Quanto menos se estuda a questão, mais se explica os movimentos das sociedades como se fossem frutos da ganância diabólica de alguns indivíduos poderosos contra as massas incautas e indefesas. Esse discurso é lisonjeiro, pois no quadro de coisas ruins que movem o mundo, nos coloca como vítimas virtuosas de elites inescrupulosas. Pensar assim também é reconfortante, já que sugere a esperança de destituirmos essas pessoas e restaurarmos a nossa verdade, contra a “deles”. Mas é, sobretudo, simples, por ser um tipo de “explicação” que pode ser usada por qualquer um, sem exigir responsabilidade de quem fala.  Esse tipo de arenga faz parte da simplificação ideológica – seja destra ou canhota –, que nos convence de que o mundo está prestes a cair completamente nas mãos do inimigo, e que para evitar isso temos que tomá-lo de volta, por completo e do nosso jeito. É isso que você vê todo dia por aí, na boca de pessoas que se dizem despertadas por uma nova consciência. Pois é, como disse Nicolás Gómez Dávila: “as ideologias foram inventadas para que aquele que não pensa possa opinar”.

O mundo é muito mais complicado do que sugerem essas visões, que, apesar de angustiantes, organizam nossos sentimentos em relação a forças ocultas que estão além da compreensão superficial. Para fazer frente a isso, um bom tanto de estudo sério traz à luz o que está oculto. E, apesar de mais coerente, é muito menos emocionante compreender que as forças ordenadoras em expansão obedecem a uma inclinação intrínseca do ser humano, que persegue uma ordem que lhe dê segurança e viabilize a prosperidade, como bem explica Bertrand de Jouvenel – pensador liberal-conservador – em seu magistral O Poder – história natural de seu crescimento.

Formas abrangentes de governança têm sido gradativamente reconhecidas em todo o globo. Não apenas a ideia quase distópica e bem acabada de um governo mundial, mas, na prática, avançam as instâncias que deliberam sobre problemas de integração que nem mercados ou códigos morais conseguem resolver sozinhos. É um fato incontornável que a criação de vias para resolução de problemas dificilmente retrocede, ainda que essas vias restrinjam liberdades.

A soberania já não existe na prática, pois se um Estado não pode decidir para onde exportar sua carne, quais os tipos de remédios pode disponibilizar a seus cidadãos ou como vai organizar as relações trabalhistas em seu território, já não é plenamente soberano. E essa soberania é cada vez mais relativizada, pois, convenhamos, ninguém quer se isolar e empobrecer, figurando como “pária internacional”, ainda mais se os motivos para as sanções sejam critérios que impõem racionalidade e sanidade.

Aliás, a racionalidade por trás de uma governança abrangente é que a submissão das partes a uma autoridade que dirime conflitos pode gerar mais benefícios do que exige em custos: controles de problemas sanitários, simplificações aduaneiras, regras comuns para o comércio, etc. E por mais que comunguemos de uma ética libertária, se faz necessário reconhecer que a história da civilização é contada por esses benefícios advindos de integrações cada vez mais abrangentes.

Os grandes impérios que mudaram a humanidade, a despeito de invariável violência e imposições, se tornaram notáveis veículos de desenvolvimento justamente por uniformizarem regras e facilitarem as relações entre seus subordinados. No século VI a.C., o Império Persa desenvolveu um sistema de governo descrito como a primeira tentativa deliberada na história de unir comunidades africanas, asiáticas e europeias heterogêneas numa só sociedade internacional organizada. No século IV a.C, o macedônio Alexandre o Grande ligou mundos separados por abismos culturais, criando o maior império jamais visto até então; as grandes referências civilizacionais que nos são mais familiares foram forjadas durante a expansão do notável Império Romano, do qual ainda somos tributários, com seu domínio capaz de plasmar unidade cultural e de direitos entre os “bárbaros”; para além de política e cultura, a Liga Hanseática ensaiou mercados capitalistas em uma comunidade internacional no norte da Europa já no século XIV; o mundo avançou com a paz vestfaliana, que no século XVII instituiu a balança europeia de poder – válida ainda hoje; depois veio Napoleão, que avançou sobre a Europa unificando códigos legais, pesos e medidas; ou ainda Birmarck e a unificação que forjou o inegável protagonismo alemão dali em diante; sem se esquecer do imenso impacto exercido pela Grã-Bretanha e seu poderio estendido sobre a Índia e tantos outros protetorados; chegando às organizações supranacionais mais recentes, que tratam de problemas como o deslocamento cultural decorrente da rápida industrialização das sociedades tradicionais e os desafios da globalização.

Em que pese os abusos que de nossa atual perspectiva envolvem a maioria dos casos citados, a busca pela ordem criou o mundo como o conhecemos. Estima-se que em 1500 a.C. havia cerca de 600 mil nações autônomas no planeta. Hoje, após muitas fusões, há 193 nações autônomas. E convenhamos que isso está mais para uma lógica e anseio humano do que para um plano posto em ação por determinadas elites. Se pensarmos bem, a própria a cristandade foi um modo de unir boa parte do globo em torno de um centro de referência moral, todavia preservando em parte a multiplicidade das muitas culturas que alcançou.

A ideia de um mundo unido não é nada nova. A pergunta, também antiga, é se a redução de custos que a ordem proporciona cobre os custos de soberania (liberdade) perdida.

E se para rebater essa lógica civilizacional evidente alguém utiliza o imperativo do mercado, por este ser contrário à governança ampliada, o filósofo Immanuel Kant, no século XVIII, previu algo um tanto desconcertante: “Os efeitos que um levante em qualquer Estado gera em todos os demais de nosso continente, onde todos são tão intimamente ligados pelo comércio, são tão perceptíveis que esses outros Estados são forçados, por sua própria insegurança, a oferecerem-se como árbitros, ainda que sem autoridade legal, de modo a prepararem indiretamente o terreno para um grande órgão político do futuro, sem antecedentes no passado”.

Sim, o próprio interesse em um capitalismo com desenvolvimento assegurado passa por um conclave de governança ampliada. Ou seja, o mercado não limita espontaneamente a ordem. Pelo contrário, a inclinação pela produção de riquezas também nos faz apreciar a ordem, como afirma Robert Wright “se gostamos da ideia de governo, isso significa que apreciamos mais ver-nos livres de sermos assaltados do que ver-nos livres para a assaltar”. 

Uma ordem ampliada cria maior interdependência – e consequentemente reduz conflitos – entre países, entre comunidades e entre pessoas. Podemos a partir daí transpor barreiras e notarmos o que temos de semelhante, criando novas comunidades de interesses compartilhados.

É útil lembrar que qualquer sistema de ordem social tem como base dois componentes: um conjunto de regras comumente aceitas, que definam os limites do que é permissível, e uma balança de poder que impõe limites caso as regras sejam violadas, impedindo assim que um ente subjugue outros. Deste ponto de vista, a única garantia contra uma ordem totalitária é uma ordem que seja livre. Mas, ainda assim é ordem, não uma colcha de retalhos de interesses essencialmente unilaterais.

O problema é que vivemos um equilíbrio delicado, pois sempre há o risco de ficarmos tão uniformizados e submetidos a uma mesma lógica que não haveria mais para onde fugir ou a quem recorrer. Afinal, para que seja eficiente a Globalização – livre fluxo de pessoas, mercadorias e capital – avançou-se com a Hiperglobalização (Globalismo, para alguns), que é a ampliação das legislações e relativização das soberanias nacionais.  Neste caso, quando alguém esbraveja contra o Globalismo, geralmente desconsidera os caminhos civilizacionais que apontamos, e passa a apelar a um fantasmagórico poder mundial com base em um plano secreto – que o entendido descobriu por acaso na internet. Apesar desse tipo gritaria, a Hiperglobalização (Globalismo) é sim um problema, por conta do distanciamento cada vez maior do cidadão com as instâncias que o representam. Essa história de “cidadão do mundo”, “aldeia global”, é muito bacana, mas isola das instituições as pessoas comuns. E isso é claramente antidemocrático.

Com base em todos esses prós e contras, de certo modo ainda não resolvemos um impasse levantado pelo choque entre o ímpeto iluminista e a sobriedade conservadora: será possível que ordens governamentais sejam inventadas a partir do zero por pessoas e grupos influentes, ou existe um espectro de direções sociais determinados por realidades orgânicas e culturais subjacentes? Ponderando tudo o que ordem e liberdade já nos proporcionaram, a resposta não é simples. Todavia, eu fico com a segunda hipótese. Mas, preciso reconhecer que não é simples.

Seja como for, e apesar de termos durante a história nos deparado com tiranos, cleptocratas, conquistadores impetuosos e impérios sangrentos, acredito ser importante considerar o que diz aquele que talvez seja o mais influente diplomata americano do último século. Henry Kissinger em seu indispensável Ordem Mundial, afirma: “NENHUMA SOCIEDADE JAMAIS deteve o poder, nenhuma liderança provou ter a capacidade de resistência e nenhuma fé o dinamismo para impor de modo duradouro suas escrituras sagradas através do mundo. A universalidade demonstrou ser um objetivo fugidio para qualquer conquistador”.

O entendimento sobre ordenamentos cada vez mais abrangentes não deve servir para lançar imagens fantasmagóricas, como é comum ver por aí. A utilidade da questão reside na reflexão sobre como funciona a sociedade, apontando os ônus e bônus das regulamentações.

Não há dúvida de que vale a pena defender a liberdade, e essa defesa só é sábia quando esclarece os próprios limites do que é ser livre. Isso passa pelo reconhecimento de que falta integração à sociedade brasileira, pois esta padece em profunda desigualdade. A ordem social aqui é precária. Aqui a liderança pública não está preparada para deliberar com consistência sobre os limites de suas intervenções. Em meio a abusos de quem volta e meia impõe um ordenamento alheio aos limites constitucionais e culturais, há quem se coloque à margem do debate, e há também quem faça uma defesa desarrazoada de uma liberdade quase mítica, como um valor que não se relaciona com o bem comum.

A liberdade deve se pautar pelo bem comum. Sem isso não há uma ordem social livre, justa, funcional e produtiva. E é esse o debate que a liderança pública deve fazer, representando pessoas e ideias. Sem a qualificação para esse debate seguiremos conduzidos por quem zurra: Ordem OU liberdade!

Amir Kanitz é sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM