Ordem e Liberdade

Coisa rara é encontrar análises políticas atuais que não se valham de falsa equivalência, comparando tudo a práticas nazistas ou comunistas. A relação entre ordem e liberdade talvez seja a questão mais maltratada por essas análises.

O argumento nestas linhas é de que o sensível equilíbrio entre ordem e liberdade é base de um anseio humano e da vitalidade social, e que mesmo em uma ordem democrática os controles se ampliam vegetativamente, adquirindo uma legitimidade às vezes desconcertante para os libertários mais aguerridos. Essas ponderações servem a qualquer liderança política que pensa em intervir na sociedade, e que não queira ser maior do que a própria sociedade ou mesmo salvá-la de algum bicho papão.

Sem ordem não há cooperação e, consequentemente, não há sociedade. Sem compartilharmos alguns paradigmas mínimos não teríamos relações produtivas, pois não nos entenderíamos e todo contato se resumiria a conflitos de soma zero, nos quais para alguém ganhar os outros precisam perder. A ordem social é a organização dos interesses privados em consonância com o mutualismo, ou, se preferir, bem comum. Definir o bem comum que é o problema.

A liberdade também é uma necessidade para o avanço social. Sem liberdade o conhecimento não se expande em toda a sua potencialidade. Uma organização social completamente centralizada limita outras organizações e iniciativas, o que consequentemente dificulta o aprimoramento. O pior é que muitas vezes as pessoas desejam o controle em detrimento da liberdade, principalmente em épocas de convulsão social, afinal, nas palavras de Charles Péguy “a tirania é sempre mais bem organizada do que a liberdade”.

Na interação entre ordem e liberdade se forma um conflito que requer equilíbrio, pois, de outro modo, se exige uma escolha paralisante entre ordem ou liberdade, sendo que esta última, sem ordem, decai em um estado hobbesiano de insegurança total.

Todos nós desejamos uma sociedade funcional e próspera. Com a aceitação crescente do modelo democrático se consolidou a ideia de que um sistema social eficaz necessita de uma estrutura legal uniforme, elaborada com inteligência e sempre aperfeiçoada, ou seja, aceitamos a intervenção positiva de quem lidera o sistema, desde que represente a maioria e não despreze as minorias. Isso, apesar de racional, é bem diferente do desenvolvimento orgânico e não-dirigido que teríamos em uma sociedade completamente livre.

A democracia opera com base em planejamentos cuja execução exige um consenso muito maior do que na realidade existe. Se for o Estado a organizar a sociedade, todos os setores serão abrangidos pela “escala social de valores” que orienta a ação do Estado. E isso é muito incerto. Há um falso acordo sobre a conveniência da ação estatal, pois, apesar de aceitarmos essa ação, não há um acordo sobre os fins que o Estado deve atender. Ou seja, em geral acreditamos que o Estado é legítimo para agir por meio de nossos representantes, mas a representação em si é um caminho tortuoso, nem sempre coerente e cada vez mais fragmentado em públicos diversos, isto é, em múltiplas e conflituosas representações.

A ordem perseguida por meio da democracia parece justa, pois cria salvaguardas contra o poder arbitrário. Porém, coloca todos irremediavelmente na órbita do Estado. E o Estado é, nas palavras de Ludwig von Mises, um “aparelho de compulsão e coerção”. A falta do exercício de cooperação voluntária pode perverter o sentido público de responsabilidade, dando origem e também atraindo ideais de bem comum que implicam uma ordem imposta de cima para baixo. O cientista político Francis Fukuyama nos lembra que a engenharia institucional carece não apenas de regras formais, mas abrange o entendimento compartilhado dos comportamentos apropriados que revestem as instituições. A ordem, neste sentido, precisa ser sustentada por crenças e práticas comuns que preenchem as instituições e as ajuda a funcionar. Se o Estado cresce e a sociedade diminui, a ordem não é livre.

Desse modo, quando todas as fricções sociais são relegadas ao tratamento estatal e por este ordenadas, isso nos empobrece, substituindo a organicidade das famílias, organizações locais, fundações privadas, clubes e associações, atraindo-os todos, cada vez mais, para a órbita do Estado. É uma ordem que pretende diminuir conflitos e aumentar coerências – o que é bom – mas tende a uniformizar e submeter a multiplicidade social – o que é ruim.

Para bem compreendermos as dinâmicas que estabelecem a ordem social não é apropriado usar teorias conspiratórias, apesar de ser mais divertido desse jeito. A tendência de ampliação do ordenamento e governança não pode ser reduzida a denunciar “planos de algumas famílias e organizações que dominam o mundo”. Quanto menos se estuda a questão, mais se explica os movimentos das sociedades como se fossem frutos da ganância diabólica de alguns indivíduos poderosos contra as massas incautas e indefesas. Esse discurso é lisonjeiro, pois no quadro de coisas ruins que movem o mundo, nos coloca como vítimas virtuosas de elites inescrupulosas. Pensar assim também é reconfortante, já que sugere a esperança de destituirmos essas pessoas e restaurarmos a nossa verdade, contra a “deles”. Mas é, sobretudo, simples, por ser um tipo de “explicação” que pode ser usada por qualquer um, sem exigir responsabilidade de quem fala.  Esse tipo de arenga faz parte da simplificação ideológica – seja destra ou canhota –, que nos convence de que o mundo está prestes a cair completamente nas mãos do inimigo, e que para evitar isso temos que tomá-lo de volta, por completo e do nosso jeito. É isso que você vê todo dia por aí, na boca de pessoas que se dizem despertadas por uma nova consciência. Pois é, como disse Nicolás Gómez Dávila: “as ideologias foram inventadas para que aquele que não pensa possa opinar”.

O mundo é muito mais complicado do que sugerem essas visões, que, apesar de angustiantes, organizam nossos sentimentos em relação a forças ocultas que estão além da compreensão superficial. Para fazer frente a isso, um bom tanto de estudo sério traz à luz o que está oculto. E, apesar de mais coerente, é muito menos emocionante compreender que as forças ordenadoras em expansão obedecem a uma inclinação intrínseca do ser humano, que persegue uma ordem que lhe dê segurança e viabilize a prosperidade, como bem explica Bertrand de Jouvenel – pensador liberal-conservador – em seu magistral O Poder – história natural de seu crescimento.

Formas abrangentes de governança têm sido gradativamente reconhecidas em todo o globo. Não apenas a ideia quase distópica e bem acabada de um governo mundial, mas, na prática, avançam as instâncias que deliberam sobre problemas de integração que nem mercados ou códigos morais conseguem resolver sozinhos. É um fato incontornável que a criação de vias para resolução de problemas dificilmente retrocede, ainda que essas vias restrinjam liberdades.

A soberania já não existe na prática, pois se um Estado não pode decidir para onde exportar sua carne, quais os tipos de remédios pode disponibilizar a seus cidadãos ou como vai organizar as relações trabalhistas em seu território, já não é plenamente soberano. E essa soberania é cada vez mais relativizada, pois, convenhamos, ninguém quer se isolar e empobrecer, figurando como “pária internacional”, ainda mais se os motivos para as sanções sejam critérios que impõem racionalidade e sanidade.

Aliás, a racionalidade por trás de uma governança abrangente é que a submissão das partes a uma autoridade que dirime conflitos pode gerar mais benefícios do que exige em custos: controles de problemas sanitários, simplificações aduaneiras, regras comuns para o comércio, etc. E por mais que comunguemos de uma ética libertária, se faz necessário reconhecer que a história da civilização é contada por esses benefícios advindos de integrações cada vez mais abrangentes.

Os grandes impérios que mudaram a humanidade, a despeito de invariável violência e imposições, se tornaram notáveis veículos de desenvolvimento justamente por uniformizarem regras e facilitarem as relações entre seus subordinados. No século VI a.C., o Império Persa desenvolveu um sistema de governo descrito como a primeira tentativa deliberada na história de unir comunidades africanas, asiáticas e europeias heterogêneas numa só sociedade internacional organizada. No século IV a.C, o macedônio Alexandre o Grande ligou mundos separados por abismos culturais, criando o maior império jamais visto até então; as grandes referências civilizacionais que nos são mais familiares foram forjadas durante a expansão do notável Império Romano, do qual ainda somos tributários, com seu domínio capaz de plasmar unidade cultural e de direitos entre os “bárbaros”; para além de política e cultura, a Liga Hanseática ensaiou mercados capitalistas em uma comunidade internacional no norte da Europa já no século XIV; o mundo avançou com a paz vestfaliana, que no século XVII instituiu a balança europeia de poder – válida ainda hoje; depois veio Napoleão, que avançou sobre a Europa unificando códigos legais, pesos e medidas; ou ainda Birmarck e a unificação que forjou o inegável protagonismo alemão dali em diante; sem se esquecer do imenso impacto exercido pela Grã-Bretanha e seu poderio estendido sobre a Índia e tantos outros protetorados; chegando às organizações supranacionais mais recentes, que tratam de problemas como o deslocamento cultural decorrente da rápida industrialização das sociedades tradicionais e os desafios da globalização.

Em que pese os abusos que de nossa atual perspectiva envolvem a maioria dos casos citados, a busca pela ordem criou o mundo como o conhecemos. Estima-se que em 1500 a.C. havia cerca de 600 mil nações autônomas no planeta. Hoje, após muitas fusões, há 193 nações autônomas. E convenhamos que isso está mais para uma lógica e anseio humano do que para um plano posto em ação por determinadas elites. Se pensarmos bem, a própria a cristandade foi um modo de unir boa parte do globo em torno de um centro de referência moral, todavia preservando em parte a multiplicidade das muitas culturas que alcançou.

A ideia de um mundo unido não é nada nova. A pergunta, também antiga, é se a redução de custos que a ordem proporciona cobre os custos de soberania (liberdade) perdida.

E se para rebater essa lógica civilizacional evidente alguém utiliza o imperativo do mercado, por este ser contrário à governança ampliada, o filósofo Immanuel Kant, no século XVIII, previu algo um tanto desconcertante: “Os efeitos que um levante em qualquer Estado gera em todos os demais de nosso continente, onde todos são tão intimamente ligados pelo comércio, são tão perceptíveis que esses outros Estados são forçados, por sua própria insegurança, a oferecerem-se como árbitros, ainda que sem autoridade legal, de modo a prepararem indiretamente o terreno para um grande órgão político do futuro, sem antecedentes no passado”.

Sim, o próprio interesse em um capitalismo com desenvolvimento assegurado passa por um conclave de governança ampliada. Ou seja, o mercado não limita espontaneamente a ordem. Pelo contrário, a inclinação pela produção de riquezas também nos faz apreciar a ordem, como afirma Robert Wright “se gostamos da ideia de governo, isso significa que apreciamos mais ver-nos livres de sermos assaltados do que ver-nos livres para a assaltar”. 

Uma ordem ampliada cria maior interdependência – e consequentemente reduz conflitos – entre países, entre comunidades e entre pessoas. Podemos a partir daí transpor barreiras e notarmos o que temos de semelhante, criando novas comunidades de interesses compartilhados.

É útil lembrar que qualquer sistema de ordem social tem como base dois componentes: um conjunto de regras comumente aceitas, que definam os limites do que é permissível, e uma balança de poder que impõe limites caso as regras sejam violadas, impedindo assim que um ente subjugue outros. Deste ponto de vista, a única garantia contra uma ordem totalitária é uma ordem que seja livre. Mas, ainda assim é ordem, não uma colcha de retalhos de interesses essencialmente unilaterais.

O problema é que vivemos um equilíbrio delicado, pois sempre há o risco de ficarmos tão uniformizados e submetidos a uma mesma lógica que não haveria mais para onde fugir ou a quem recorrer. Afinal, para que seja eficiente a Globalização – livre fluxo de pessoas, mercadorias e capital – avançou-se com a Hiperglobalização (Globalismo, para alguns), que é a ampliação das legislações e relativização das soberanias nacionais.  Neste caso, quando alguém esbraveja contra o Globalismo, geralmente desconsidera os caminhos civilizacionais que apontamos, e passa a apelar a um fantasmagórico poder mundial com base em um plano secreto – que o entendido descobriu por acaso na internet. Apesar desse tipo gritaria, a Hiperglobalização (Globalismo) é sim um problema, por conta do distanciamento cada vez maior do cidadão com as instâncias que o representam. Essa história de “cidadão do mundo”, “aldeia global”, é muito bacana, mas isola das instituições as pessoas comuns. E isso é claramente antidemocrático.

Com base em todos esses prós e contras, de certo modo ainda não resolvemos um impasse levantado pelo choque entre o ímpeto iluminista e a sobriedade conservadora: será possível que ordens governamentais sejam inventadas a partir do zero por pessoas e grupos influentes, ou existe um espectro de direções sociais determinados por realidades orgânicas e culturais subjacentes? Ponderando tudo o que ordem e liberdade já nos proporcionaram, a resposta não é simples. Todavia, eu fico com a segunda hipótese. Mas, preciso reconhecer que não é simples.

Seja como for, e apesar de termos durante a história nos deparado com tiranos, cleptocratas, conquistadores impetuosos e impérios sangrentos, acredito ser importante considerar o que diz aquele que talvez seja o mais influente diplomata americano do último século. Henry Kissinger em seu indispensável Ordem Mundial, afirma: “NENHUMA SOCIEDADE JAMAIS deteve o poder, nenhuma liderança provou ter a capacidade de resistência e nenhuma fé o dinamismo para impor de modo duradouro suas escrituras sagradas através do mundo. A universalidade demonstrou ser um objetivo fugidio para qualquer conquistador”.

O entendimento sobre ordenamentos cada vez mais abrangentes não deve servir para lançar imagens fantasmagóricas, como é comum ver por aí. A utilidade da questão reside na reflexão sobre como funciona a sociedade, apontando os ônus e bônus das regulamentações.

Não há dúvida de que vale a pena defender a liberdade, e essa defesa só é sábia quando esclarece os próprios limites do que é ser livre. Isso passa pelo reconhecimento de que falta integração à sociedade brasileira, pois esta padece em profunda desigualdade. A ordem social aqui é precária. Aqui a liderança pública não está preparada para deliberar com consistência sobre os limites de suas intervenções. Em meio a abusos de quem volta e meia impõe um ordenamento alheio aos limites constitucionais e culturais, há quem se coloque à margem do debate, e há também quem faça uma defesa desarrazoada de uma liberdade quase mítica, como um valor que não se relaciona com o bem comum.

A liberdade deve se pautar pelo bem comum. Sem isso não há uma ordem social livre, justa, funcional e produtiva. E é esse o debate que a liderança pública deve fazer, representando pessoas e ideias. Sem a qualificação para esse debate seguiremos conduzidos por quem zurra: Ordem OU liberdade!

Amir Kanitz é sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM

A saída é ficar rico

Para efeitos individuais essa é uma dica um tanto óbvia, pois logo nos ocorre o que faríamos e o que deixaríamos de fazer se ficássemos ricos, de modo que formamos uma imagem muito clara das facilidades que seriam imediatamente desfrutadas.

Muito além disso, a ideia é que a sociedade precisa enriquecer para melhorar. Não apenas para que as pessoas possam desfrutar de mais facilidades, mas para sermos de fato uma boa sociedade. Neste caso, apenas aumentar o PIB, por exemplo, não causa efeitos positivos e imediatos tão óbvios assim, pois a questão é o ciclo de pobreza que reflete uma cultura de fragilidades que não nos permitem prosperar, experimentar ou evoluir. E dinheiro não compra uma nova cultura. Portanto, uma sociedade rica significa muito mais do que dinheiro circulando nela.

A estabilidade econômica é, todavia, fundamental. O Nobel de economia Angus Deaton publicou em 2020 com a economista Anne Case o livro Deaths of Despair and the Future of Capitalism, em que analisam como a instabilidade econômica e a precarização do emprego aumentam as taxas de mortalidade, além de mostrar uma espiral de destruição das famílias, que ficam mais vulneráveis a separações, as crianças com mais dificuldades na escola e os adultos se limitando a lutar pela sobrevivência. Em cenários assim, exigir envolvimento político coerente, maturidade e cidadania, se torna um esforço quase supérfluo, pois não há como as pessoas pensarem na coletividade quando vendem o almoço para comprar a janta.

Viver em uma sociedade rica não é apenas um objetivo final, mas também uma base necessária. O cientista político Robert D. Putnam demonstrou em seu estudo Growing Class Gaps, como a pobreza gera a fragilização dos arranjos familiares, aprofundando um ciclo de estagnação social que resulta em desastrosos reflexos políticos.

A pobreza acaba cimentando existências precárias. Para amplos setores empobrecidos o futuro é artigo de luxo. Sem perspectivas as pessoas são consumidas por práticas que as distanciam do próprio desenvolvimento pessoal. Nesse contexto a educação formal – considerada como uma via de preparação pessoal para o futuro – está diretamente relacionada ao encurtamento das expectativas. O artigo de Putnam aponta que nos EUA – e não há motivos para acharmos que estamos melhores por aqui – nos dois terços menos instruídos da população, em que as mulheres têm apenas o ensino médio ou menos, cerca de 60% das crianças nascem fora do casamento. Assim, a mãe que tem apenas ensino médio ou superior incompleto tem filhos em média dois anos antes do casamento, enquanto a mãe universitária os tem depois de dois anos de casamento. Parece que o casamento se tornou um assunto de gente rica, tanto que os filhos de pais ricos e instruídos atualmente têm muito mais probabilidades do que outras crianças de crescer em um lar com os dois pais presentes.

O ciclo se perpetua, de modo que os ricos investem cada vez mais tempo que os outros pais no desenvolvimento de seus bebês e filhos pequenos. Em geral, os pais com formação universitária dedicam à educação de seus filhos cerca de uma hora por dia a mais do que os pais que têm apenas o ensino médio. Putnam reuniu dados de como os pais com diploma de nível superior têm o dobro de probabilidade de ler todos os dias para os filhos, quando comparados a outros pais. Os ricos também costumam conversar mais com os filhos e de forma muito mais interativa do que os demais: um filho de três anos, de pais com profissões e ganhos estáveis, terá ouvido cerca de 20 milhões de palavras a mais do que uma criança de três anos filha de pais sem profissão definida, e mais de 30 milhões de palavras mais do que um filho de três anos de pais mantidos por programas de transferência de renda.

Um dos mais conceituados autores atuais sobre o tema da meritocracia, Daniel Markovits, em um estudo de mil páginas reuniu referências que mostram como “pais ricos e instruídos geralmente demonstram mais afeto pelos filhos, participam mais da vida deles e proporcionam uma disciplina mais consistente do que seus congêneres de classe média e, principalmente, pobres. Esses investimentos diferenciados dão às crianças da elite recursos emocionais — extroversão, autoconfiança, disciplina e coragem — que as crianças pobres e de classe média não conseguem igualar”. O autor apresenta resultados de pesquisas recentes sobre a relação entre aptidões não cognitivas e o sucesso na vida, indicando que essas diferenças emocionais entre as crianças de elite e as de famílias pobres na primeira infância têm consequências ainda maiores do que as diferenças cognitivas.

Progressivamente, as famílias ricas podem investir em uma ordem social meritocrática do ponto de vista acadêmico, vocacional e emocional, mais do que as demais famílias. E a defasagem alcança até mesmo a classe média que, em países como o Brasil, passou a ser chamada de “precariado”, por estar aprisionada no que se tem denominado como armadilha do baixo crescimento. A classe média ficou mais próxima da pobreza, e quando seu consumo aparece muito acima dos mais pobres podemos dizer que essa melhor situação revela uma “síndrome do pato”, que designa o contraste entre o suave deslizar do pato na superfície e o frenético bater de pés debaixo d’água para impulsioná-lo.

É importante olharmos para isso tudo como um problema que vai além de dificuldades pessoais e familiares. É um problema social. O mega industrial e filantropo Andrew Carnegie, ainda em 1889 escreveu em seu O evangelho da riqueza que “o problema de nossa era é a adequada administração da riqueza, para que os laços da fraternidade ainda possam unir ricos e pobres numa relação harmônica”.

Vidas precárias formam uma teia social precária. A incerteza não permite o desenvolvimento da confiança que é necessária a uma sociedade vibrante e produtiva.

O baixo valor econômico de gerações completamente absorvidas pelas necessidades mais básicas forma multidões socialmente desvalorizadas e politicamente ressentidas, que compartilham um turbilhão de recriminações, desrespeitos e disfunções que deformam a vida social e política.

Esse é um diagnóstico que não pretende atacar ninguém, mas que deveria desconcertar a todos nós.

A pobreza gera distanciamento das questões públicas, o que aumenta a desigualdade política e por fim sabota a democracia. E antes que me acusem de comunista é importante ressaltar que essa apreensão serve justamente para evitar saídas revolucionárias, pois a renitente concepção marxista para “classe dominante” vai se tornando real em sociedades empobrecidas, já que é nestas que se impõem obstáculos à mobilidade social.

Se não enriquecermos como sociedade teremos existências precárias continuamente assombrando a vida política. As elites vão se separando da sociedade de cujo apoio político já não necessitam, enquanto a classe média e os pobres adotam o ódio populista e o ressentimento, rejeitando o conhecimento e as instituições, e atacando tudo o que lhes parece estranho ou desconhecido. Uma sociedade empobrecida sempre está sob o risco de se desintegrar rapidamente, pois na luta pela sobrevivência nos organizamos por meio de padrões, práticas e visões de mundo que raramente se cruzam, mas que apenas interagem o mínimo para fins específicos, quase fisiológicos, e ficamos cada vez mais distantes, estranhos e mutuamente insensíveis.

A riqueza baseada apenas no pináculo social não basta, e pode até ser fator de ruína. Para entender melhor isso podemos fazer uma comparação ilustrativa: muito provavelmente você já ouviu falar a respeito da “maldição” que recai sobre os países ricos em recursos naturais — como petróleo, ouro ou diamantes — que são quase sempre menos ricos do que os que têm poucos desses recursos. A distorção que a posse de recursos naturais causa na economia é explicada pela tendência para a concentração de riqueza e poder numa pequena casta de proprietários dos recursos. Desse modo é tristemente normal que países ricos em recursos naturais não invistam em educação de massa, suprimindo as rotas para produtividade e inovação, de maneira que nunca formam classes médias produtivas e dinâmicas. Também é comum que países assim consolidem instituições sociais e políticas corruptas, feitas sob medida para proteger os interesses de uma elite poderosa à custa do bem público. Devido a isso, os países ricos em recursos naturais crescem mais lentamente do que os demais.

Voltando ao nosso caso, quando a riqueza em capital humano reside em uma diminuta parcela da sociedade temos uma versão dessa maldição. No Brasil estamos longe de ostentar uma riqueza de capital humano que seja socializada, e os setores desenvolvidos são incapazes de fomentar o enriquecimento geral, o que distorce a vida social e a prática política.

Podemos entender, portanto, que nesses termos uma sociedade rica é uma sociedade melhor e vice-versa, afinal, a boa sociedade é aquela que se enriquece. E se você prestou atenção até aqui já sabe que não será o Estado a mover isso sozinho, pois ele é fator de desigualdade, uma vez que reflete os interesses de castas bem organizadas.

Então, como enriquecer? Ora, não vamos cair na cilada do coach financeiro pobre, né? Quem pode nos ensinar a enriquecer é quem enriqueceu por seus méritos! E para isso precisamos do protagonismo de elites que balizem e inspirem o enriquecimento da sociedade. E muita atenção aqui, pois esse processo ocorre de duas maneiras: 1) preparando o meio corporativo para atuar em questões públicas, de modo que pressione a eficiência do Estado em inovações para a solução de problemas públicos; e 2) com o provimento de um cultura da iniciativa privada que aprimore a cooperação, abraçando famílias e comunidades por meio de seus colaboradores – para se ter uma ideia, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos afirma que a pessoa a quem você se reporta no trabalho é mais importante para sua saúde do que seu médico. As lideranças corporativas provocam um profundo impacto na maneira como os liderados tratam seus cônjuges, seus filhos e sua comunidade. 

Porém, o envolvimento do setor privado em projetos para a superação do empobrecimento social não pode ser hipócrita ou superficial. A iniciativa privada já entendeu há tempos que precisa investir em conhecimento para ter bons resultados em suas áreas de atuação. Mas estranhamente muitos continuam pensando que uma atuação social e política pode ser feita com base em percepções rasas e de senso comum sobre a realidade.

Já foi repetido à exaustão que para o Brasil crescer precisamos de estabilidade, crescimento econômico e produtividade. A isso acrescento que para sermos prósperos precisamos socializar o capital cultural e humano. E só divide quem já tem.

Amir Kanitz é sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM

De cima para baixo

A elite brasileira aparece como a sexta pior no Índice de Qualidade das Elites, um relatório abrangendo 32 países e produzido pela Fundação para a Criação de Valor. Estamos atrás de países como Cazaquistão e Botswana. A boa notícia é que a nossa elite não é pior que a da Argentina.

É importante entendermos que o estudo define elite como “grupos coordenados que demonstram alguma excelência em criar e acumular riquezas”. Todas as sociedades possuem esses grupos, e não podemos menosprezar sua importância, sobretudo quando atuam na vanguarda do desenvolvimento. Mas, quando vemos a elite brasileira tão mal avaliada precisamos entender quais são os critérios usados na análise.

Há uma diferença substancial entre elites que beneficiam a sociedade e as elites que se beneficiam das instituições do país. As primeiras fortalecem as instituições, gerando um valor que é socialmente desfrutado. No nosso caso, as elites se apropriam de favores e privilégios, destruindo a confiança que as instituições deveriam sustentar, e por isso são chamadas de elites “extrativas”.

Exemplos disso são o nosso sistema tributário covarde que pressiona quem ganha menos, pois aqui são as classes baixas que pagam proporcionalmente mais para consumir o básico. Até mesmo a concorrência de mercado muitas vezes desaparece quando grandes players conseguem proteções tarifárias e outras situações privilegiadas. O judiciário, por usa vez, faz o jogo da impunidade quando permite recursos sem fim a quem tem dinheiro para adiar as sentenças até prescreverem as penas. E por aí vai.

Talvez a nossa maior e mais frustrante crise seja essa: os grupos mais qualificados não estão organizados para contribuir com o desenvolvimento de longo prazo da sociedade, mas estão apenas empenhados em garantir um ganho imediato para si mesmos.

E isso não é motivo para dizer que “é culpa do Capitalismo!”. Não. Pois há países riquíssimos, como mostra o estudo citado – os líderes são Alemanha, Suíça e Cingapura – nos quais as elites articulam esforços para que serviços públicos funcionem cada vez melhor, para que as instituições do Estado tenham mais transparência, equilíbrio e ofereçam segurança jurídica a toda a sociedade; para que a concorrência do mercado seja uma oportunidade de mobilidade social e não um vetor de desigualdade intransponível.

Infelizmente, aqui nós ficamos com a pior parte do poder de influência das elites: as instituições foram capturadas por grupos descolados da realidade do povo e de suas principais necessidades. Assim foram consolidados privilégios para algumas castas que manejam os poderes em seu exclusivo benefício, impedindo que os interesses e anseios da população sejam representados nos planos de ação e reformas de longo prazo.

É por isso que as instituições não nos representam e há tempos sofrem enorme descrédito. Porque foram capturadas e não servem a nenhum interesse popular. As instituições infelizmente se tornaram instrumentos de injustiça, pois inclinam a balança para o lado de algumas elites sem compromisso com o país.

Mas, a saída não é destruir as instituições, como alguns desejam e até defendem. Como eu disse, há exemplos de como elas podem funcionar melhor. Por outro lado, não há nenhum exemplo de como o enfraquecimento institucional possa gerar efeitos positivos.

A única saída realista (e a realidade nunca é simples) é agir nas instituições. É impelir uma elite que ocupe seus espaços com valores que também representem a maioria da população. Isso leva tempo. É trabalho racional e organizado.

Para isso precisamos da atuação de uma parte da elite que ainda se encontra parcialmente adormecida. Da elite que produz e se preocupa com o país, mas que sempre preferiu ficar de fora dos movimentos e ideias políticas – não se trata de política eleitoral ou reações desarrazoadas em busca de salvação nacional, mas de agendas que abracem os problemas de todos. Precisamos mais do que nunca dessa elite tão capaz de criar riquezas, mas que não é organizada para se engajar nas mudanças que o país precisa. O que nos falta é uma elite que lidere o país para fora do atoleiro.

Resumindo, a elite precisa exercer liderança legítima. Bob Chapman, CEO e presidente do conselho de administração da Barry-Wehmiller, empresa norte-americana de fornecimento de peças e tecnologia, se tornou uma referência mundial no esforço para que ambientes corporativos compreendam a sociedade e suas instituições. Como o próprio Chapman diz, carecemos de uma “liderança que se estenda para além das paredes das empresas”.

Quem gera valor econômico influencia todas as áreas da sociedade. Quem lidera gera impacto sobre os liderados. Quem se destaca cria exemplo. E o exemplo que vem de cima, aqui no nosso país, não é exatamente de preocupação com o aprimoramento das instituições nacionais de forma ampla. Quando as elites mostram alguma preocupação com questões pública, esta é voltada a destravar seus próprios embaraços, mas não para aprimorar sistemas que beneficiam a todos.

A elite é vanguarda. Para o bem ou para o mal. Ela ajuda a aprofundar ou tratar a doença do interesse próprio destrutivo. As elites bem classificadas são as que contribuem com modelos organizacionais que dão esperança e estimulam que todos joguem não apenas jogos competitivos e indiferentes, mas jogos cooperativos e bem integrados.

A história mostra que é por essa via que as coisas acontecem. É por isso que precisamos desesperadamente de uma elite com a cultura de planejar e agir na criação de um bom ambiente político, econômico e social.

Há ótimas pessoas nas nossas elites, o que falta é o esclarecimento e preparo necessários para atuar no longo prazo em questões sociais e políticas.

O que a parte boa das nossas elites precisa entender é que olhar para os seus ganhos econômicos imediatos é muito superficial, pois, como insistia o sociólogo Robert Nisbet, “as raízes do desenvolvimento econômico estão nas ideias e comportamentos que não são essencialmente econômicos”. Ou seja, o sucesso econômico no longo prazo depende da construção dos pilares de uma sociedade na qual vale a pena viver.

Isso é uma construção. Quem constrói isso não são pessoas que aceitam ir bem em um lugar que vai mal, mas é um esforço orientado pelos mais capazes e engajados em defender valores que são comuns a toda a sociedade.

É por aí que a mudança vem.

Amir Kanitz é sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM