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Como aprender a redigir com facilidade

       

O capítulo 38 do livro Professor não é Educador, do Armindo Moreira trata de como ajudar alunos a aprenderem uma das mais importantes habilidades para a vida e para as profissões: escrever bem. Isto significa organizar as ideias e comunicá-las aos outros.

“Os professores queixam-se de que os alunos não sabem redigir. Para os alunos, redigir é um tormento. E o pior é que o cidadão sai da escola com horror à redação! Vemos, por aí, pessoas que suam para lançar quatro linhas num papel.”

“Quando o professor exige que alunos de nove anos dissertem sobre Os Deveres do Prefeito ou sobre Higiene, os alunos desejariam poder também dizer: Eu nem sei o que isso é!… Mas não podem: têm de fazer a redação, sob pena de serem considerados desobedientes ou preguiçosos e de verem um zero na pauta. E fazem qualquer coisa que sai sem jeito e inaceitável. Esta frustração, repetida vezes sem conto, cria a inibição. Ninguém dá o que não tem é um provérbio que deve estar presente na mente do professor, quando manda fazer uma redação.”

“Escreve quem tem assunto e quem tem palavras para o fazer. Se o aluno ainda não foi acometido pela inibição, ele redigirá com simplicidade e sem esforço sobre assuntos que domina e para os quais ele possui vocabulário. O que mais atrapalha o redator – seja criança, seja adulto – é a carência de vocábulos. Assim, muito antes de exigir que o aluno redija, devemos preocupar-nos com que ele adquira um grande vocabulário; que saiba os nomes das coisas que nos cercam; que saiba os nomes das partes, dos elementos e dos pormenores dos objetos com que lidamos.”

“Um dia, coloquei uma caixa de fósforos sobre a mesa e disse à turma de 5ª série: Façam uma redação sobre esta caixa de fósforos. Foi um espanto de protestos e de desânimo! Alegavam todos que não havia que dizer sobre uma caixa de fósforos. Fiz sinal para que atendessem. Peguei o giz e escrevi no quadro os seguintes nomes: base inferior, base superior, face esquerda, face direita, face anterior, face posterior, aresta, paralelas, logotipo, marca, inscrição, lixa, paralelepípedo, espessura, folha de madeira, invólucro, gaveta, côncavo, curso, comprimento, largura, altura, ajustamento, frágil, leve, ângulo, junta, cola, papel, cor, função. Larguei o giz e disse: Façam, agora. Descrevam a caixa de tal modo, que quem não a viu fique sabendo como ela é e possa até desenhá-la. As canetas começaram imediatamente a deslizar, com alívio e até com alegria. Ninguém fez menos de vinte linhas. Ninguém fez redação inaceitável.”

Esta mesma técnica pode ser aplicada tanto em sala de aula como em casa, escolhendo o aluno ou indicado pelos pais, os temas ou objetos sobre os quais irá fazer uma redação. Como sugestão, para crianças e adolescentes, escolher objetos de seu interesse.

Sobre cada tema ou objeto escolhido, o aluno escreve tudo o que vier à mente – mesmo que seja palavrão, despropósito ou frase incompleta, que se refira ao tema ou objeto. “Chama-se esta parte do exercício prova de velocidade e tem por objetivo que a escrita seja tão rápida quanto o pensamento.”

“Poucos alunos permanecem inibidos. A maioria descobre que o importante é começar a escrever – seja como for e o que for – já que, depois, lança fora o que não interessa.”

Este exercício praticado repetidas vezes, é quase infalível em seus resultados proporcionando à pessoa que a o faz, uma boa capacidade de redação.

Adaptado do livro “Professor Não é Educador”, de Armindo Moreira

Você sabe ouvir?

Há cerca de 35 anos estava em uma festa e após o almoço, duas senhoras, uma lavando a louça e outra secando, conversavam animadamente.

A que estava lavando começou falar de sua viagem de férias com a família, que havia ocorrido há pouco tempo. Tinha sido uma semana maravilhosa, com muito sol, com passeios, com mergulho, etc. A outra senhora que secava a louça, assim que a primeira deu uma “parada pra respirar”, começou falar da sua viagem de férias, também para a praia. Porém ao contrário da anterior, tinha sido uma semana muito ruim, com muita chuva, com vômitos, com queimaduras de água viva, etc. Deu uma “parada pra respirar”, a que estava lavando continuou falando de sua semana, que foram para um parque de diversões, que foram em restaurantes ótimos, etc. A senhora que estava secando, retorna falar outros relatos ruins de sua viagem.

O tempo que fiquei observando, em nenhum momento uma fez perguntas sobre a viagem da outra; ambas apenas falaram, cada uma de sua viagem.

Passados uns 20 anos daquela primeira observação, certo dia presenciei um senhor que chegou onde tinha mais pessoas e disse: esta noite dormi mal, muita dor de cabeça, que noite horrível. Imediatamente outra pessoa falou: eu também dormi mal, mas pra mim foi dor no estômago, nossa, passei muito mal.

Em 2012 após iniciar a divulgação do livro Professor não é Educador, as questões ligadas à educação das pessoas – não da instrução – cada vez mais entraram no meu radar de observações.

Em 2014, a partir de reflexões do livro acima, criamos o Movimento Pessoas Melhores – movimento que deixou de existir naquele formato, e de certo modo, transformou-se no Instituto Pessoas Melhores – que tinha entre seus objetivos, ajudar pais a educar melhor os filhos. Lembrando daqueles episódios descritos acima, incluímos entre as características de uma pessoa bem educada, o que na ocasião denominamos de “saber ouvir”.

Esta questão foi central: o que é recomendável para ouvir bem quem está falando? Prestar atenção no assunto que está sendo falado, olhar para a pessoa, observar sua expressão e fazer perguntas do mesmo assunto. Imagine aquelas senhoras perguntado uma à outra: em que praia foram? Conheceram outras praias? Foram só com a família ou mais alguém? Os problemas de saúde passaram logo ou duraram mais tempo? Etc. E o interlocutor poderia ter falado àquele senhor: de fato, é horrível quando não se dorme bem. Tem dor de cabeça com frequência? Desconfia do que pode ser a origem dela? Fez alguma coisa para amenizar? etc.

Passados mais alguns anos, li o livro do Bob Chapman, “Todos São Importantes”, e nele, Bob fala que “…a coisa mais poderosa que um líder pode fazer é escutar de forma profunda e verdadeira. Escutamos as palavras, mas raramente diminuímos a velocidade para escutar e sentir com nossos ouvidos para entender emoções, medos e preocupações ocultas….”

Tratando desse assunto com o amigo e Psicólogo Fabian Giordani, ele falou em ‘escuta ativa’, que da mesma forma, significa estar presente, prestar atenção, fazer perguntas para bem compreender a pessoa que está falando.

Por fim, a cereja do bolo, com os livros do Marshall Rosenberg, “Comunicação Não Violenta”, e “Vivendo a Comunicação não Violenta”, confesso, livros que deram um nó no cérebro levando-o a rever conceitos, hábitos, sobretudo ligados a muitos desnecessários julgamentos. O caminho para a verdadeira empatia passa por evitar juízos, evitar avaliações e apenas observar, a si próprio e ao outro, tentar captar os sentimentos e necessidades das pessoas envolvidas. “O primeiro passo da conexão empática é o que Martin Buber chamou de dádiva mais preciosa que um ser humano pode dar a outro: a presença”. E continua, “…receber a mensagem com empatia, conectando-se com o que está vivo na pessoa, sem fazer julgamentos”.  

Esta comunicação proposta pelo Rosenberg, que já está produzindo efeitos positivos, dada a sua profundidade e sutileza, poderá, com o tempo, e muito, mas muito treino, em vários outros aspectos, ser incorporada na minha rotina diária.

Caro leitor, se ainda não havia feito reflexões a este respeito, experimente observar a si próprio e a outras pessoas. Muitos têm por hábito falar apenas de si, de seus projetos, de suas realizações, do que assistiram, do que conheceram, etc, muito à semelhança dos relatos acima.

Concentrar-me na pessoa que está falando, tentar captar o que verdadeiramente está tentando dizer, fazer perguntas para melhor compreendê-la, é uma prática que requer bastante atenção e colabora para fazer progressos na direção da escuta com empatia.

E certamente como resultado, a sua vida e da outra pessoa será enriquecida,  tornando-as mais maravilhosas.

Edésio Reichert

Vice-presidente do IPM

Para juntar multidões fale com cada um

Por todo o globo as democracias vêm apresentando solavancos e até mudanças de rumos. Muitos são os que profetizam seu colapso ou início de uma nova era, alguns com base em expectativas de esperança, outros com medo do que pode acontecer.

Deixando de lado qualquer tipo de catastrofismo, esperança idealista ou mero exercício de futurologia, temos que reconhecer novos fatores que reconfiguraram a participação democrática. São fatores que vêm mudando as formas de mobilização da sociedade e a ascensão do indivíduo como protagonista no processo de discussão de políticas públicas.

Os processos institucionais e partidários têm sido cada vez mais combatidos por serem artificiais, manipulados, pouco ou nada representativos, muito vagarosos e burocráticos. Ou seja, o povo não consegue e não quer agir dentro dessas estruturas. Por outro lado, a possibilidade de ação democrática encontrou grande potencial de participação não apenas por intermédio dos meios digitais, mas exclusivamente neles. Portanto, é uma questão de entender não “se”, mas “como” a democracia vai funcionar daqui para frente.

Uma conversa mais direta, sem mediação institucional, ocorre a todo o momento nas redes sociais. Todos os temas são debatidos incessantemente por lá. Em meio a tudo o que realmente importa tem muita bobagem também, é verdade, mas é justamente essa flexibilidade que potencializa esses meios, uma vez que carrega no mesmo processo entretenimento, narrativas e valores.

Não é novo o fato de que para uma conversa com o público é necessário contar uma história que toque o cidadão, algo que seja relevante para ele. E, para isso, sempre foi importante entender o público-alvo, considerando suas motivações, desejos, ansiedades e valores.

Sempre foi assim. Antes, porém, não havia como chegar a cada um em particular. Os “perfis” não estavam abertos, mas as pessoas estavam diluídas em grandes grupos como segmentos profissionais, regiões geográficas, comunidades religiosas, grupos étnicos, etc. Por isso as narrativas que alcançavam o grande público eram muito mais genéricas, amplas, se posicionando em questões que envolvem pouca paixão, como os bons e velhos temas: saúde, segurança, educação, etc. Hoje não existe mais o grande público, mas uma infinidade de públicos acessíveis, ativos e com funcionamento intermitente.

Antes, o custo de mobilizar era altíssimo. Agora esse custo praticamente desapareceu. Hoje qualquer um pode ter sua voz propagada, desde que entenda a dinâmica das redes e o comportamento das pessoas em um sistema em rede. A defesa de interesses e propagação de causas nessa nova realidade depende dessa compreensão.

É legítimo e necessário mobilizar pessoas em uma democracia. Aliás, ser cidadão envolve usufruir plenamente dos direitos políticos, e isso não se dá pelo simples exercício do voto, mas pela atuação associativa que trata de demandas, problemas e soluções que ultrapassam a esfera privada. Para isso ocorrer não basta estar certo, ser bem intencionado ou honesto. É fundamental manejar – com ética e legitimidade – os meios de mobilização e suas redes.

As estruturas organizacionais ultrapassadas jogam contra. Quem quiser viabilizar seus valores e demandas em debates extremamente dinâmicos, sendo capaz de mobilizar e engajar pessoas, deve saber que a ação é cada vez mais personalizada. Isso significa que mesmo para tratarmos de questões públicas precisamos personalizar a ação, conectando as pessoas com anseios muito particulares e envolvimento quase emocional.

A fluidez com a qual as pessoas transitam entre causas e debates, militando aqui e ali, sem exclusividade e tanta profundidade, mas com uma capacidade ampliada de conexão com semelhantes (eventuais) é uma das grandes questões a serem compreendidas por todos os que desejam e precisam de participação popular na construção de soluções que sejam realmente representativas.

A radicalização da democracia pode ser a personalização da democracia. Nós até nos envolvemos, mas só com aquilo que toca em nossos valores e que pode ser tratado pelo celular. Tudo isso pode significar mais individualismo e superficialidade, porém, é inegável que está mais rápido e fácil participar.

Me parece muito claro que devemos investir em lideranças que saibam acessar essa nova realidade, sem simplesmente manipulá-la em seu favor. Ou seja, mesmo com toda a tecnologia e possibilidades que ela cria, são as pessoas que de fato podem fazer algo pelas outras pessoas, sobretudo se estiverem dispostas a entendê-las antes de querer mudar o mundo.

Amir Kanitz é sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM