Já somos todos marxistas?

Às vezes me pergunto se já não nos tornamos todos marxistas. Esse questionamento não me ocorre por conta do alcance das doutrinas marxistas nos vários níveis do nosso sistema educacional, e nem mesmo pelo fato de muitas correntes ideológicas deste matiz ainda proliferarem mundo afora. Essa impressão emerge por causa de uma certa mentalidade que parece ter tomado conta de quase todas as pessoas que pensam e agem nas questões públicas. E essa mentalidade alcança os mais variados tipos de inclinação ideológica.

Para você que se sente imune em relação ao pensamento revolucionário marxista, pelo simples fato de recusar tudo o que venha com o nome e o rosto do teórico comunista, eu gostaria de fazer um alerta: talvez você seja um deles!

Karl Marx tem uma frase célebre sobre todos os pensadores, que até então apenas “interpretaram o mundo de diferentes maneiras, porém, o que importa é transformá-lo”. Pois é, Marx era um homem prático. Ele desejava mudança na prática, de tudo, e o quanto antes melhor. Para este influente pensador seria a prática (práxis revolucionária) que mudaria o mundo do jeito certo e necessário.

Pois bem, você pode perceber que os antípodas do comunismo, os empreendedores capitalistas, deveriam representar exatamente o contrário daquele pensamento. Mas, não é bem assim. A burguesia, imbuída de um espírito de inovação e mudança constante, não apresenta uma alternativa tão diferente assim do método de ação do velho comuna. Não pretendem, evidentemente, socializar as riquezas e implantar a “igualdade” violenta e ineficaz (como a História já provou) do tipo marxista. Porém, mesmo nós (me incluo aqui entre quem acredita que democracia e capitalismo produzem mais liberdade e riqueza do que quaisquer outros sistemas já tentados) fomos contaminados por uma mentalidade que deseja transformação social imediata.

A identificação com ideias revolucionárias nem sempre é tão óbvia. E o que proponho aqui é um tanto quanto desconfortável: se você não suporta mais “tudo o que está aí”, esse “sistema podre e corrupto”, as elites políticas que “enganam o povo”, as “estruturas injustas de poder”; e como remédio espera por uma mudança completa e imediata dessa realidade…parece que você assimilou bem o método de mudança social proposto pelo materialismo dialético do velho Marx. Seja como for, liberal ou conservador você certamente não é, pois estes sabem que as mudanças sociais dependem de uma ação de longo prazo, levadas adiante pela própria sociedade e de acordo com seus valores e interesses, SEM esperar por uma intervenção política contundente e definitiva.

Ou seja, se você quer levar toda a sua mentalidade prática para a política, transformando a realidade sem antes investir no esforço árduo de entender como funcionam os processos de construção dos valores sociais e políticos; se você quer simplificar todo o debate, saltando o processo de acomodação negociada de demandas conflitantes; se você exige soluções que venham de cima eliminando todo o mal e implantando uma sociedade melhor… pode ser difícil aceitar, mas você é sim um revolucionário.

Talvez esse seja o momento em que você pensa “sim, só uma revolução para mudar isso tudo aí”. Quanto a isso gosto de lembrar da frase do sempre memorável Roberto Campos: o problema da Revolução é a letra “R”.

Uma sociedade funcional, que elimine progressivamente os problemas e avance para modos mais eficientes de tratamento dos problemas públicos nunca é baseada na ruptura, mas na evolução consistente das soluções que sejam cada vez mais representativas e inteligentes. Não é Revolução, mas Evolução.

Por favor, não leia isso e imagine como os outros se encaixam nessa mentalidade de prática transformadora e revolucionária. Note como todos estamos sucumbindo a esse modelo de pensamento, e que por isso não nos envolvemos em processos de longo prazo, de mudança política consistente com alicerces profundos na nossa realidade. Estamos todos, de parte a parte, desejando uma nova realidade, mas quem está compreendendo melhor a realidade que nos cerca para então se engajar em mudanças pontuais e urgentes? Ou seja, quem está estudando de fato problemas e soluções, para então agir nos problemas que se apresentam logo diante dos seus olhos? Poucos, muito poucos.

E finalmente quero provocá-los com mais uma frase do nosso mais famoso liberal, Roberto Campos: “os comunistas sempre souberam chacoalhar as árvores para apanharem no chão os frutos. O que não sabem é plantá-las”. É uma frase que causa regozijo em todos nós que somos críticos do comunismo. Mas, agora eu pergunto: em relação às mudanças políticas, o que você está fazendo? Chacoalhando a árvore em uma agitação barulhenta que exige mudança já, e que essa mudança caia do céu pelas mãos de algum governante ungido, ou você está plantando e regando as mudanças?

E aí, você é um marxista (enrustido) esperando pela mudança de todas as estruturas políticas e sociais, ou vai começar a se envolver na solução dos problemas públicos que estão aí pertinho de você?

Amir Kanitz – Sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM

Videomonitoramento colaborativo

A segurança pública é uma das maiores preocupações do brasileiro, mesmo em cidades do interior. A busca por mais segurança tem passado por soluções que exigem inovação, monitoramento eficiente de dados e desenvolvimento de tecnologia capaz de integrar as diferentes forças de segurança.

Um modelo de boa prática já adotado em várias cidades do Brasil é o de videomonitoramento colaborativo. Nesse programa câmeras particulares são integradas a um sistema que armazena as imagens em nuvem, criando uma imensa malha de monitoramento de toda a cidade e interior. A partir disso é possível operar com inteligência sobre os dados armazenados, realizando análises pormenorizadas de placas de veículos, movimentações consideradas suspeitas e o desenrolar de atos criminosos. As imagens cedidas por particulares são, evidentemente, apenas da parte externa dos estabelecimentos, resguardando a privacidade de cada um. O acesso aos dados também é controlado e permitido apenas às forças de segurança, impedindo assim o desvirtuamento do acesso.

O Instituto Pessoas Melhores (IPM) abraçou esse projeto e tem buscado desde meados de 2020 a mobilização necessária para que um sistema como este seja implantado em Toledo. Para o IPM essa iniciativa representa muito bem o que se espera de políticas públicas inovadoras: atende uma demanda geral, tem como foco os serviços e não simplesmente a manutenção de dispendiosa infraestrutura no município, fortalece a cultura de colaboração para a resolução de problemas públicos, e torna-se viável a partir da mobilização qualificada na soma dos esforços de entidades locais.

A primeira etapa iniciou-se no dia 04 de novembro de 2020, quando o IPM reuniu no auditório da Acit entidades para conhecerem um pouco mais sobre o projeto. Além do próprio presidente da Acit, também estiveram presentes representantes do Comdet, Sindicato Rural, Núcleo de Imobiliárias, Sinvar, Sincoeste, Junsoft, Sicoob e Guarda Municipal. Posteriormente Associação Médica e OAB também conheceram o projeto e demonstraram apoio.

04 de novembro de 2020. Reunião com entidades para mobilização do projeto.

Na última segunda-feira, 1 de fevereiro, foi dado mais um passo para o avanço dessa agenda. Em reunião com o secretário de segurança e trânsito de Toledo, Arthur Rodrigues de Almeida, o IPM juntamente com os presidentes da Acit, Comdet e Sindicato Rural apresentaram a pauta.

O secretário de segurança mostrou-se um entusiasta do projeto, de modo que se fortaleceu o compromisso de apoio do Instituto Pessoas Melhores para a continuidade da mobilização junto às entidades em torno do tema, encaminhando os próximos passos para que essa solução seja viabilizada em Toledo o mais breve possível. O sr. Arthur salientou a importância dessa mobilização das entidades, construindo de forma colaborativa as soluções que a sociedade demanda como um todo.

É fundamental que o debate se amplie, para que mais perspectivas sejam acrescentadas e se alcance a solução mais adequada à realidade local. Por conta disso, o IPM segue mobilizando as entidades interessadas em participar desse projeto, bem como fortalecendo as ações que envolvam a cooperação da sociedade civil para a melhoria dos serviços públicos.

Reunião com o Secretário de Segurança e Trânsito de Toledo. Claudenir Machado (ACIT), Edésio Reichert (IPM), Sr. Gaffuri, Secretário Arthur Rodrigues de Almeida, Nelson Paludo (Sindicato Rural), Anaide Holzbach (Comdet) e Amir Kanitz (IPM).

Você convive com quem mente e rouba?

Imagino ser quase impossível encontrar uma pessoa, sobretudo que tenha uma boa condição financeira, que assuma não se importar se algum trabalhador próximo, alguma pessoa próxima, tiver por hábito mentir, roubar qualquer coisa, seja em atitude isolada ou regularmente.

Será fácil encontrar alguém que após comer e beber num bar, percebe na hora de pagar a conta que estão cobrando cervejas a mais, que não foram tomadas, e mesmo assim paga com gosto, com satisfação, e não vê problema algum em ser “roubado” desta maneira?

Em outra situação, será que encontramos alguém que paga com gosto e satisfação um calçado barato, 30 reais por exemplo, que está com costuras tortas, restos de cola nas laterais, pedaços de courvin sobrando, etc.? Provavelmente não.

As simulações acima remetem a aspectos da vida que estão por demais presentes em tudo o que fazemos, nas relações, nos produtos e/ou serviço que compramos, porém nem sempre refletimos sobre eles: HONESTIDADE/COMPETÊNCIA/QUALIDADE.

E não importa a situação financeira: todos nós gostamos e pagamos, produtos e serviços, feitos – pelos outros – de forma competente e honesta.

Se todos temos isto presente em nossa vida, deveria ser uma relação automática a reflexão, mas sabemos que não é: o que eu faço, nas minhas relações humanas, no meu trabalho, que rigor tem, que nível de exigência tenho comigo mesmo, em se tratando de competência e honestidade?

Desde um simples bom dia, um elogio, uma crítica feita por outros, até grandes decisões, grandes ações de trabalho, é possível ver ali estas palavrinhas, ou a ausência delas.

Convém lembrar aqui que honestidade vem pelo esforço e pela educação; já competência vem pelo esforço e instrução.

Por várias evidências, é fácil perceber, os sinais da falta daqueles valores em escolas, em empresas, em associações, em viagens, em casas, etc. indicando claramente que algo está indo muito mal. E o início de tudo é na família.

Famílias com boa situação financeira, onde pais dedicam muito, mas muito mais tempo ao trabalho, ao lazer, ao conforto de uma casa e dão pouca ou nenhuma atenção à educação moral dos filhos; ensinar honestidade dentro de casa não está no radar das maiores ocupações.

Há tempos falei com uma coordenadora de uma escola particular onde só estudavam filhos de classe média e alta e ouvi dela o seguinte: “passo metade do meu tempo “educando” alunos mal- educados”. Difícil imaginar que entre as questões abordadas pela coordenadora sobre a “educação dos filhos dos outros” não estaria a questão da honestidade. E não há porque imaginar que nas escolas públicas seria melhor a situação.

Theodore Dalrymple, no seu livro “A Vida na Sarjeta”, páginas 228/229 revela como aprendeu sobre honestidade com sua mãe, aos 8 anos de idade, lição aquela nunca mais esquecida. Roubou um chocolate na loja da esquina, saboreou e confessou a bravura ao irmão mais velho. Por conta de uma discussão com o irmão, este contou para mãe o roubo do chocolate. Foi obrigado a voltar na loja, pedir desculpas e pagar em dobro (com dinheiro da mesada).

Se não aceitamos conviver com quem nos rouba, com quem mente, com quem nos trapaceia, deveria ser o primeiro e maior de todos os compromissos: ensinar aos filhos a honestidade, a verdade, o que é o certo e o que é errado, pois será isto que dará o rumo na vida deles, que norteará as ações futuras, justamente para que eles – filhos – não se tornem no futuro, aquilo que não aceitamos no presente: pessoas que nos roubam, que mentem.

Sem esta firmeza de pais na educação moral dos filhos, qualquer simples influência externa – na escola, de colegas de grupos, da internet, etc – facilmente poderão se deixar levar pela direção que outros poderão dar, e que nem sempre é boa.

“A mente, assim como a natureza, abomina o vácuo, e se nenhum interesse cativante foi desenvolvido na infância e na adolescência, tal interesse é imediatamente criado com os materiais que tem à disposição”. Theodore Dalrymple, pg 177/178.

Firmeza na educação moral dos filhos, é muito mais importante que dar muitos presentes, que dar do “bom e do melhor”, pois será aquilo que dará boa direção na vida deles. Ou será que encontramos pais que desejam sinceramente que seus filhos sejam na vida adulta: preguiçosos, mentirosos, ladrões, prostitutas, traficantes?

Edésio Reichert é empresário e vice-presidente do IPM