E como isso nos afeta?

A deflagração de disputas em nível internacional, como a que agora resultou em guerra, pode nos afetar de diversas formas, sobretudo ao limitar parcerias e transações com algum dos lados do conflito. Ainda que haja neutralidade, os resultados serão sentidos por quem, como nós, faz parte de mercados globalizados.
Contudo, há algo que já nos afetou. E isso no sentido de que já gerou em nós algum tipo de afeto. O nosso sentimento em relação a tudo isso é revelador.
Não é novidade para ninguém que na última década, por uma série de motivos, mas principalmente por conta do maior acesso a informações, multidões despertaram para algum nível de consciência política. Claro, isso não significa que as pessoas entendem o que está acontecendo, mas certamente possuem suas versões e argumentos sobre quase tudo, e não deixam de nos brindar com esses “conteúdos”.
Esse despertar tem muito a ver com o fato de termos nos acostumado a receber exemplos da erosão da família, da derrocada das tradições, do combate à religião, bem como do crescimento da hipocrisia, falsidade, ganância, e tudo isso somado a conteúdos compilados sobre esforços constantes de pessoas perversas que querem dominar o mundo.
Em que pese a realidade que envolve muitos desses conteúdos, o principal efeito de termos nossa atenção captada nesse sentido é a formação de uma percepção de que o mundo em que vivemos foi completamente tomado pelo mal, que prospera sem freios. Até aí não há confusão, afinal, eu sou cristão e acredito que “o mundo jaz no maligno” 1 Jo 5:19. Porém, a atual percepção geral não traz consigo a consciência cristã de uma redenção que transcende a nossa realidade, e que é preciso ter fé, esperança e caridade até o fim, sem sobressaltos de desespero. Mas, pelo contrário, o que o recente “despertar de consciência” nos trouxe foi uma sensação de que não há o que fazer a não ser que tudo mude de um só golpe.
As pessoas ficaram cada vez mais indignadas com tudo o que veem (ou que recebem em seus celulares), mas também paralisadas diante de um mundo que descobriram estar em ruínas. As denúncias sobre a degeneração civilizacional forjaram para nós uma imagem de Ocidente decadente e mau, que foi tomado por tudo o que há de pior na natureza humana. O que nos resta é chorar lembrando de algum passado imaginado.
Essa imagem absolutamente angustiante da vida é sustentada pelos estímulos constantes para que nossa atenção seja dirigida a fatos extremos, nos desviando das pequenas e boas coisas que podemos de fato fazer.
A percepção negativa, que causa medo e desespero, é mais vívida agora do que nunca. Mas, essa percepção, apesar de não ser suficiente para nos colocar em ação, nos conduz a tomadas de posição. E é desse modo, afetados por um mundo em estado vertiginoso de decomposição, que muitos tomam posição em favor de primeiro líder forte que aparece, que se apresente como patriota, que apesar de autoritário e violento posa de defensor da família, e que não pestaneja em usar de violência contra o mundo, que, afinal, está em decadência mesmo.
Nossa consciência é formada por infindáveis horas do nosso dia ASSISTINDO a derrocada do mundo. Estamos viciados em ver exemplos de desonestidade e maldade. E só o que nos resta é ESPERAR que alguém faça alguma coisa para mudar isso.
Muitos acreditam que esse alguém encarna “a vontade” de nações inteiras, como se fosse possível isso. Aliás, é impressionante como se fala com facilidade que “a Rússia quer” isso ou aquilo, “a Ucrânia fez” tal coisa, “o Brasil escolheu” algo. Isso não existe. Governos querem, fazem, escolhem, decidem em bloco. As pessoas que formam as nações têm escolhas individuais e conflitantes umas com as outras, e não podem ser reduzidas a decisões de uma entidade estatal.
Por exemplo, se 57 milhões de pessoas optaram por um governante, ele ocupará o cargo temporariamente, e em uma democracia isso significa que os 45 milhões que não o escolheram continuam existindo e sendo representados de alguma maneira. Essa coexistência barulhenta da democracia incomoda demais quem está angustiado com os tão alardeados males do mundo, e quer o alívio pela mão forte de um líder que esmague os dissensos e crie uma sociedade “coerente”, que pense em bloco, que faça UMA escolha.
O atual conflito internacional nos afetou assim, fazendo emergir em muitos a expressão de recusa pela liberdade bagunçada e afeto profundo por alguma força que, por mais violenta que seja, coloque no EIXO esse mundão perdido.
É um afeto que revela carência e um desejo forte por ser controlado. Mas isso é sentimental, não racional. Um povo que de fato prima por suas tradições, religião, família e virtudes, quer se ver livre de autocratas e seus Estados que coletivizam artificialmente corações e mentes. Porém, por aqui, vemos que o cidadão assustado com o mundo dominado pelos maus, realizou um giro desconcertante em direção a alguém que se apresenta pior que os maus, mas que promete os colocar prostrados se sobrepondo em maldades.
Para superarmos essa afeição com líderes fortes capazes de mudar tudo, temos que desenvolver habilidades para agirmos em nossas próprias realidades, em nossa comunidade, nas nossas famílias. De outro modo só crescerá a simpatia por ações radicais e totalitárias.
O medo de um mundo que não podemos controlar; a preguiça de tomar as rédeas da própria vida e defender na prática seus valores em meio às muitas forças ativas nas sociedades livres; a busca por pessoas e atos que resolvam tudo; isso faz muitos se inclinarem ao afetuoso abraço do urso.

Amir Kanitz é sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM