Pior que Fake News

Em uma democracia, além dos poderes institucionais (Executivo, Legislativo e Judiciário), convencionou-se chamar de “quarto poder” a imprensa. É, de fato, um poder no sentido de ter alcance fundamental para a formação da opinião pública, sobretudo em sua capacidade de informar sobre as atividades dos governantes.

A opinião pública é o conjunto de concepções gerais mais difundidas e aceitas em uma sociedade. Em uma democracia essas ideias se traduzem em ações e escolhas, ou seja, são essenciais para orientarem a representação que as pessoas pretendem ter no plano da ação pública.

Com o decréscimo da influência de família, religião e comunidade local no modelamento da visão dos indivíduos acerca do mundo que os cerca, orientando suas ações, os meios de comunicação estão ocupando esse espaço, em um processo de séculos que vai desde a criação da imprensa até o acesso ilimitado de informações em nossos celulares. Não apenas “a grande mídia”, mas as redes sociais em especial possuem um poder singular, pela capacidade de difusão e aceitação de seus conteúdos. Portanto, vivemos um fenômeno muito atual, que reordena a cultura através de um novo meio que dispensa, em parte, os antigos. É uma cultura na qual a informação circula em volume e velocidade vertiginosos. As referências e símbolos necessários para orientar as ações dos indivíduos na sociedade provêm, agora, de outras fontes, com outra velocidade e de conteúdos inesgotáveis.

Um dos problemas envolvidos nesse fenômeno é que tal volume de informações não reflete exatamente mais conhecimento, consistência ou diversidade de referências. Pelo contrário, muitas vezes significa um deslocamento da realidade imediata, pois as pessoas são guiadas por assuntos que mobilizam seu grupo específico, sendo pressionadas a tomarem partido e a se sensibilizarem a partir de critérios muitas vezes distantes de sua experiência. Torna-se “importante” aquilo que é repetido e compartilhado por muitos, e justamente por ser repetido por aqueles que combinam conosco acreditamos que é o mais correto. O fluxo das informações é que confere importância ao conteúdo, e não os conteúdos realmente importantes e reais que ganham mais alcance.

Como os conteúdos são definidos

No livro “Acredite, estou mentindo: confissões de um manipulador de mídias”, Ryan Holiday explica com base em sua experiência de renomado editor de portais eletrônicos de sucesso nos EUA, como o potencial em se propagar e conquistar cliques e acessos orienta a escolha dos conteúdos. Quem publica – e isso vale até mesmo para os grandes meios – seleciona o conteúdo na expectativa de ter grande alcance, e é dessa maneira que manchetes são formuladas e tratadas.

Se o objetivo das mídias é captar atenção, fica óbvia a importância de se compreender o comportamento e reações humanas, isto é, ao que reagimos com mais intensidade. Dessa maneira, o que provoca reações mais extremadas, como ódio, indignação ou confirmação das nossas opiniões políticas, será mais acessado e repassado.

A realidade ou veracidade das informações fica em segundo plano, até mesmo porque em grande parte das vezes a notícia nem é lida, mas apenas a manchete, que pode ser um exagero em relação ao conteúdo da matéria. O critério definidor do conteúdo passou a ser em grande parte o impacto que podem causar e não a utilidade e veracidade do conteúdo. Isso coloca todos os envolvidos nessa nova cultura da informação em uma situação de manipulação constante das emoções. Não chegamos a notar, afinal os conteúdos que recebemos combinam com nossas preferências e interesses, que são decodificados por analistas de conteúdo.

Nesse ponto, o essencial é compreender que todos os esforços dos produtores de conteúdos que tenham a finalidade de captar atenção resultam em capacidade de acionar sentimentos mobilizadores. Por conta desse artifício somos ao mesmo tempo agrupados e polarizados conforme a aceitação de determinadas versões, isto é, de acordo com as versões que mais nos agradam.

Os efeitos são claros, pois retrocedemos em relação a algumas conquistas que as democracias liberais proporcionaram. Nas mídias sociais estamos agrupados em segmentos que reforçam mutuamente suas opiniões, agravando um dado psicológico chamado de disfunção narcotizante, ou seja, passamos a confundir a agitação dos meios de comunicação com a vida real. O desespero, as acusações e mesmo o sarcasmo das redes sociais passam a forjar nossa visão de mundo, mesmo que isso contradiga a nossa realidade cotidiana – “homens são estupradores em potencial”, “empresários são exploradores”, “brancos são racistas”, partidários de determinadas ideias são todos maus ou imbecis, etc. Tudo isso se cristaliza no enorme volume de informações que recebemos e repassamos, mas não se confirma na presença de pessoas reais que se identificam com esses grupos, pois evidentemente não são todos maus, preconceituosos, violentos, imbecis, etc. Retornamos a uma ética tribal, em que não vemos mais indivíduos, mas rótulos que definem “o outro”. Isso tudo é reforçado pelo volume de informações ajustados à nossa personalidade.

O fenômeno conhecido como “viés de confirmação” distorce a nossa visão da realidade, pois acomoda toda a realidade – que é complexa, multivariada, muitas vezes surpreendente e mutável – de acordo com nossas preferências. É uma tendência humana crer que todos os dados que reunimos confirmam nossas crenças, porém a verdade é que somente reunimos tais dados e os chamamos de evidências justamente porque se alinham às nossas crenças!

Portanto, quando nós nos estabelecemos confortavelmente em redes sociais, com amizades e debates completamente alinhados à nossa visão de mundo, organizados para atacar as ideias diferentes, de modo a tratá-las todas como adversárias e irremediavelmente idiotas, ficamos mais e mais desinformados, apesar do grande volume de informações que circulam por lá. É possível concluir que não é o número massacrante de posts, vídeos e comentários circulando em nossos nichos que pode nos esclarecer sobre os fatos, pois isso tudo apenas satisfaz o nosso costume de ver tais fatos por determinado ponto de vista.

Talvez a pior característica das redes sociais nem seja o tempo que elas nos tomam, ou as futilidades lá muito comuns, mas o fato de podermos escolher a realidade que queremos encarar, ou seja, não é a realidade, mas a nossa versão preferida dela. A análise cuidadosa desse fenômeno nos permite entender que as fake news são muito mais do que simples mentiras, mas são formas de delírios que ganham força justamente na fragilidade daqueles que são incapazes de viver a realidade mais próxima.  

A mentira não está apenas nos conteúdos falsos. Podemos viver de mentira à medida que desviamos nossa atenção da realidade de nossas famílias, comunidades e cidades, para voluntariamente nos deixarmos conduzir por disputas que não podemos verificar de perto, e muito menos influenciar os rumos. Preferimos nos posicionar em grupos temáticos virtuais, e assim deixamos de olhar para as soluções que poderíamos elaborar, e talvez melhorar a realidade que nos cerca. Mas acreditamos estar ao lado da razão, simplesmente por repassarmos conteúdos que foram elaborados com a única finalidade de serem compartilhados massivamente.

O problema não é apenas a Fake News que você viu em um grupo de internet. O problema é que você fica lá em vez de viver a sua realidade.

Como se moldar à nova economia após a covid-19?

O Estado de S. Paulo – 25 de Maio de 2020

LEANDRO MIRANDA RESPONSÁVEL PELA ÁGORA INVESTIMENTOS E DIRETOR EXECUTIVO E DE RELAÇÕES COM INVESTIDORES DO BRADESCO.

Cada vez mais países abrem ou preparam-se para abrir a sua economia paulatinamente. O mundo quer voltar a girar, ser produtivo, ser livre. Mas o mundo não é mais o mesmo de alguns meses atrás e deverá transformar-se ainda mais nos próximos meses até estar pleno novamente.

Naturalmente, questionamentos fundamentais surgem. Como já foram e serão ainda mais afetados os hábitos sociais, de consumo e de investimento? Como foram e serão ainda mais afetados a renda e até mesmo o emprego? Como está e estará a saúde financeira e os negócios das empresas? Algumas empresas se fortaleceram, outras se enfraqueceram, outras morreram e outras novas surgiram e essa dinâmica deverá acentuar-se um pouco mais antes de começar o processo de recuperação. Processo evolutivo típico.

Mas quem serão os vencedores, aqueles que sairão mais fortes e melhor adaptados? Quem serão os novos líderes políticos, empresariais, banqueiros e sociais? Quem serão aqueles que terão a visão, trarão aspiração, inspiração, transpiração e liderarão nossos países, empresas, bancos, seus colaboradores e comunidades? Muito provavelmente, não serão aqueles cheios de certezas, convicções porque o que estamos vivendo é inédito e repleto de incertezas e novas tendências. Também não serão os egocêntricos porque os novos líderes trabalharão para os que precisam dele, serão ferramentais para aqueles que precisam deles. Também não serão os hierárquicos, centralizadores porque são lentos e a dança das cadeiras já começou numa velocidade estonteante. E não serão aqueles individualistas que tendem a resolver tudo sozinho porque ninguém sozinho terá todas as respostas.

Os novos líderes serão agregadores, terão a habilidade de escolher times complementares com pontos de vista diferentes porque o ponto de vista é a vista a partir de um ponto e todos serão necessários para interpretar os novos tempos, serão humildes para escutar atentamente muitas opiniões díspares, serão serenos para avaliar e tomar as melhores decisões e horizontais para serem rápidos na execução.

Os novos líderes precisarão ser empáticos para conseguir se colocar na posição dos diversos tipos de colaboradores e de clientes e fazer com que se engajem pelo propósito e pela identificação de princípios e valores, pelo mesmo DNA de alguém que se importa. Essa nova liderança será exercida através do que chamo de Gestão Participativa onde todos os stakeholders são não só o fim, mas o meio e também a origem das decisões. As relações serão esféricas. Já que não sabemos o que nos espera, como diria Bruce Lee, sejamos como água. “Não se coloque dentro de uma forma, se adapte e construa a sua própria, e deixe-a expandir, como água. Se colocarmos a água num copo, ela se torna o copo; se a colocar numa garrafa, ela se torna a garrafa. A água pode fluir ou colidir. Seja água, meu amigo”.

Inteligência Coletiva

Conhecer bem o contexto, avaliar corretamente os meios que pode utilizar e buscar a melhor solução entre as possibilidades existentes; esse é um roteiro simples para qualquer gestor, privado ou público. Mas, o principal aqui está no processo para se chegar a essas informações. Diferentemente do que muitas vezes se espera, essas referências não estão na cabeça de nenhum gestor.

James Surowiecki é considerado o mais influente editor de negócios dos EUA. O premiadíssimo editor da revista The New Yorker escreveu o best seller “A sabedoria das multidões”, livro no qual usou sua experiência no mundo dos negócios, agregando uma série de resultados de experimentos sociais realizados ao longo de mais de um século por cientistas comportamentais, para apresentar uma tese que confronta algumas crenças muito enraizadas, afirmando que “o grupo é mais inteligente que o mais inteligente do grupo”. Ou seja, grupos sociais têm mais chances de acertar nas escolhas que envolvam decisões públicas do que indivíduos, ainda que estes sejam geniais.

A abordagem de Surowiecki não é nada marginal, afinal se inscreve em uma clássica análise da ordem social espontânea, da qual são tributários grandes nomes como Friedrich Hayek (Prêmio Nobel de Economia em 1974), Frank Knight e Michael Polanyi.

A ideia de uma inteligência coletiva não se aplica a tudo. Trata-se de uma evidência demonstrada por vários experimentos sociais – que compõem boa parte do conteúdo do livro de Surowiecki – aplicável a processos que envolvem cognição, ou seja, a necessidade de se decidir com inteligência; coordenação, que depende da sincronização de vários indivíduos; e cooperação, isto é, que apesar de interesses particulares variados é necessário agir juntamente com os outros, criando um efeito coletivo melhor do que antes. Ora, estas são características próprias dos objetivos de qualquer organização produtiva, associação de interesses ou formulação de políticas públicas.

É claro que a genialidade ainda pertence a indivíduos. Somente pessoas independentes têm capacidade de serem originais, fazerem descobertas e criarem alternativas. Mas, ainda assim, é a sociedade que consegue encontrar os meios mais eficientes para maximizar a satisfação por meio da evolução das escolhas, que por sua vez se tornam costumes e referências.

É só imaginarmos – como no exemplo dado pelo próprio Surowiecki – o início da era dos automóveis. Muito modelos surgiram, movidos por eletricidade, a vapor e outros ainda por motores à explosão. Os designs eram inesgotáveis e a funcionalidade variada. Havia, no início do século XX, mais de cem fábricas de automóveis só nos EUA! Mas, apesar dessa profusão de opções, foi o MERCADO que definiu quem deveria desaparecer. Essa decisão foi coletiva, diminuindo o interesse por modelos muito barulhentos, com gasto de combustível acima do aceitável, ou desconfortáveis demais, ou ainda com resultados pífios em questão de velocidade. Ou seja, as pessoas, por meio de escolhas descentralizadas e independentes definiram o que seria o automóvel.

Certamente os inventores de tipos alternativos de automóveis estão acima da média de inteligência comum. Mas são as pessoas que – coletivamente –  sabem como maximizar a satisfação por meio do processo de escolha entre alternativas variadas. Aí está a inteligência do mercado.

Esse é apenas um dos exemplos de como as dinâmicas de escolhas nos grupos sociais pode fornecer uma compreensão essencial, capaz de orientar eficientemente a busca por soluções de problemas comuns.

Porém, as decisões operadas por grupos sociais somente são boas quando oferecem as três seguintes características:

Diversidade de opiniões: cada indivíduo do grupo possui informações pessoais, mesmo que sejam interpretações excêntricas, ou até intuições sobre o assunto. Isso enriquece o panorama de opções, afinal, as descobertas mais originais às vezes soam como disparates logo que são expressadas, mas podem ser debatidas, testadas e aprovadas, ou simplesmente deixadas de lado.

Independência: as diversas opiniões que se apresentam na sociedade não podem ser completamente determinadas por alguma autoridade. Essa liberdade já existe em uma Democracia Liberal, porém, não podemos deixar de observar que se as pessoas se reúnem para expor suas opiniões podem ser constrangidas por outras que têm mais autoridade, que são especialistas, que fazem parte de alguma elite ou mesmo têm uma oratória convincente. Por isso, a questão não está em reunir todos e deixar “cada um falar um pouquinho”, pois este processo pode ser distorcido. O importante é conseguir captar essas opiniões “in natura”.

Descentralização: as pessoas têm a capacidade de se tornarem “especialistas” em sua localidade, em seus problemas específicos, em seus modos produtivos e costumes próprios. Essa visão parcial é fundamental para compor um panorama mais rico e detalhado da sociedade.

No livre mercado estas condições (diversidade, independência e descentralização) estão satisfeitas, fornecendo mais alternativas, eficiência e oportunidades. Mas o livre mercado é uma ordem espontânea (em um estado ideal). E como utilizar essa riqueza social para decidir sobre a elaboração de políticas públicas?

O grande desafio é encontrar o método ou meio capaz de agregar todas essas informações proporcionadas pela diversidade, independência e descentralização. O mercado faz isso na geração do preço, que nada mais é do que uma informação condensada sobre a escassez, as demandas e oportunidades.

Certamente, para que nos aproximemos de decisões mais representativas e eficientes, balizadas pelo interesse social, não podemos centralizar as decisões nas mãos de alguns gestores e de seus sábios reunidos; também não é o simples estabelecimento de um debate com várias “cabeças pensantes” que será suficiente para tomar as melhores decisões, pois não será capaz de apresentar a riqueza das posições menos especializadas do homem comum; e, finalmente, se as decisões públicas forem tomadas desde um centro que abrange localidades diversas, a única coisa certa será o risco de generalizar burramente uma medida qualquer.

Precisamos orientar os processos com dados sobre a realidade que queremos atingir (cognição), conhecendo as pessoas reais que estão envolvidas (coordenação) e atuando para encontrar a solução ótima para todos, em sua diversidade de interesses (cooperação).

O bom gestor saberá se orientar por essas necessidades, desenvolvendo a capacidade de ler uma diversidade de opiniões, de vontades independentes, e com a riqueza das visões locais. A descentralização só funciona se forem obedecidos esses parâmetros, senão só teremos falsos debates, crise de representatividade, e visões estreitas (ainda que técnicas) da complexidade social. E isso, infelizmente, todos nós já conhecemos bem.