Como se moldar à nova economia após a covid-19?

O Estado de S. Paulo – 25 de Maio de 2020

LEANDRO MIRANDA RESPONSÁVEL PELA ÁGORA INVESTIMENTOS E DIRETOR EXECUTIVO E DE RELAÇÕES COM INVESTIDORES DO BRADESCO.

Cada vez mais países abrem ou preparam-se para abrir a sua economia paulatinamente. O mundo quer voltar a girar, ser produtivo, ser livre. Mas o mundo não é mais o mesmo de alguns meses atrás e deverá transformar-se ainda mais nos próximos meses até estar pleno novamente.

Naturalmente, questionamentos fundamentais surgem. Como já foram e serão ainda mais afetados os hábitos sociais, de consumo e de investimento? Como foram e serão ainda mais afetados a renda e até mesmo o emprego? Como está e estará a saúde financeira e os negócios das empresas? Algumas empresas se fortaleceram, outras se enfraqueceram, outras morreram e outras novas surgiram e essa dinâmica deverá acentuar-se um pouco mais antes de começar o processo de recuperação. Processo evolutivo típico.

Mas quem serão os vencedores, aqueles que sairão mais fortes e melhor adaptados? Quem serão os novos líderes políticos, empresariais, banqueiros e sociais? Quem serão aqueles que terão a visão, trarão aspiração, inspiração, transpiração e liderarão nossos países, empresas, bancos, seus colaboradores e comunidades? Muito provavelmente, não serão aqueles cheios de certezas, convicções porque o que estamos vivendo é inédito e repleto de incertezas e novas tendências. Também não serão os egocêntricos porque os novos líderes trabalharão para os que precisam dele, serão ferramentais para aqueles que precisam deles. Também não serão os hierárquicos, centralizadores porque são lentos e a dança das cadeiras já começou numa velocidade estonteante. E não serão aqueles individualistas que tendem a resolver tudo sozinho porque ninguém sozinho terá todas as respostas.

Os novos líderes serão agregadores, terão a habilidade de escolher times complementares com pontos de vista diferentes porque o ponto de vista é a vista a partir de um ponto e todos serão necessários para interpretar os novos tempos, serão humildes para escutar atentamente muitas opiniões díspares, serão serenos para avaliar e tomar as melhores decisões e horizontais para serem rápidos na execução.

Os novos líderes precisarão ser empáticos para conseguir se colocar na posição dos diversos tipos de colaboradores e de clientes e fazer com que se engajem pelo propósito e pela identificação de princípios e valores, pelo mesmo DNA de alguém que se importa. Essa nova liderança será exercida através do que chamo de Gestão Participativa onde todos os stakeholders são não só o fim, mas o meio e também a origem das decisões. As relações serão esféricas. Já que não sabemos o que nos espera, como diria Bruce Lee, sejamos como água. “Não se coloque dentro de uma forma, se adapte e construa a sua própria, e deixe-a expandir, como água. Se colocarmos a água num copo, ela se torna o copo; se a colocar numa garrafa, ela se torna a garrafa. A água pode fluir ou colidir. Seja água, meu amigo”.

Inteligência Coletiva

Conhecer bem o contexto, avaliar corretamente os meios que pode utilizar e buscar a melhor solução entre as possibilidades existentes; esse é um roteiro simples para qualquer gestor, privado ou público. Mas, o principal aqui está no processo para se chegar a essas informações. Diferentemente do que muitas vezes se espera, essas referências não estão na cabeça de nenhum gestor.

James Surowiecki é considerado o mais influente editor de negócios dos EUA. O premiadíssimo editor da revista The New Yorker escreveu o best seller “A sabedoria das multidões”, livro no qual usou sua experiência no mundo dos negócios, agregando uma série de resultados de experimentos sociais realizados ao longo de mais de um século por cientistas comportamentais, para apresentar uma tese que confronta algumas crenças muito enraizadas, afirmando que “o grupo é mais inteligente que o mais inteligente do grupo”. Ou seja, grupos sociais têm mais chances de acertar nas escolhas que envolvam decisões públicas do que indivíduos, ainda que estes sejam geniais.

A abordagem de Surowiecki não é nada marginal, afinal se inscreve em uma clássica análise da ordem social espontânea, da qual são tributários grandes nomes como Friedrich Hayek (Prêmio Nobel de Economia em 1974), Frank Knight e Michael Polanyi.

A ideia de uma inteligência coletiva não se aplica a tudo. Trata-se de uma evidência demonstrada por vários experimentos sociais – que compõem boa parte do conteúdo do livro de Surowiecki – aplicável a processos que envolvem cognição, ou seja, a necessidade de se decidir com inteligência; coordenação, que depende da sincronização de vários indivíduos; e cooperação, isto é, que apesar de interesses particulares variados é necessário agir juntamente com os outros, criando um efeito coletivo melhor do que antes. Ora, estas são características próprias dos objetivos de qualquer organização produtiva, associação de interesses ou formulação de políticas públicas.

É claro que a genialidade ainda pertence a indivíduos. Somente pessoas independentes têm capacidade de serem originais, fazerem descobertas e criarem alternativas. Mas, ainda assim, é a sociedade que consegue encontrar os meios mais eficientes para maximizar a satisfação por meio da evolução das escolhas, que por sua vez se tornam costumes e referências.

É só imaginarmos – como no exemplo dado pelo próprio Surowiecki – o início da era dos automóveis. Muito modelos surgiram, movidos por eletricidade, a vapor e outros ainda por motores à explosão. Os designs eram inesgotáveis e a funcionalidade variada. Havia, no início do século XX, mais de cem fábricas de automóveis só nos EUA! Mas, apesar dessa profusão de opções, foi o MERCADO que definiu quem deveria desaparecer. Essa decisão foi coletiva, diminuindo o interesse por modelos muito barulhentos, com gasto de combustível acima do aceitável, ou desconfortáveis demais, ou ainda com resultados pífios em questão de velocidade. Ou seja, as pessoas, por meio de escolhas descentralizadas e independentes definiram o que seria o automóvel.

Certamente os inventores de tipos alternativos de automóveis estão acima da média de inteligência comum. Mas são as pessoas que – coletivamente –  sabem como maximizar a satisfação por meio do processo de escolha entre alternativas variadas. Aí está a inteligência do mercado.

Esse é apenas um dos exemplos de como as dinâmicas de escolhas nos grupos sociais pode fornecer uma compreensão essencial, capaz de orientar eficientemente a busca por soluções de problemas comuns.

Porém, as decisões operadas por grupos sociais somente são boas quando oferecem as três seguintes características:

Diversidade de opiniões: cada indivíduo do grupo possui informações pessoais, mesmo que sejam interpretações excêntricas, ou até intuições sobre o assunto. Isso enriquece o panorama de opções, afinal, as descobertas mais originais às vezes soam como disparates logo que são expressadas, mas podem ser debatidas, testadas e aprovadas, ou simplesmente deixadas de lado.

Independência: as diversas opiniões que se apresentam na sociedade não podem ser completamente determinadas por alguma autoridade. Essa liberdade já existe em uma Democracia Liberal, porém, não podemos deixar de observar que se as pessoas se reúnem para expor suas opiniões podem ser constrangidas por outras que têm mais autoridade, que são especialistas, que fazem parte de alguma elite ou mesmo têm uma oratória convincente. Por isso, a questão não está em reunir todos e deixar “cada um falar um pouquinho”, pois este processo pode ser distorcido. O importante é conseguir captar essas opiniões “in natura”.

Descentralização: as pessoas têm a capacidade de se tornarem “especialistas” em sua localidade, em seus problemas específicos, em seus modos produtivos e costumes próprios. Essa visão parcial é fundamental para compor um panorama mais rico e detalhado da sociedade.

No livre mercado estas condições (diversidade, independência e descentralização) estão satisfeitas, fornecendo mais alternativas, eficiência e oportunidades. Mas o livre mercado é uma ordem espontânea (em um estado ideal). E como utilizar essa riqueza social para decidir sobre a elaboração de políticas públicas?

O grande desafio é encontrar o método ou meio capaz de agregar todas essas informações proporcionadas pela diversidade, independência e descentralização. O mercado faz isso na geração do preço, que nada mais é do que uma informação condensada sobre a escassez, as demandas e oportunidades.

Certamente, para que nos aproximemos de decisões mais representativas e eficientes, balizadas pelo interesse social, não podemos centralizar as decisões nas mãos de alguns gestores e de seus sábios reunidos; também não é o simples estabelecimento de um debate com várias “cabeças pensantes” que será suficiente para tomar as melhores decisões, pois não será capaz de apresentar a riqueza das posições menos especializadas do homem comum; e, finalmente, se as decisões públicas forem tomadas desde um centro que abrange localidades diversas, a única coisa certa será o risco de generalizar burramente uma medida qualquer.

Precisamos orientar os processos com dados sobre a realidade que queremos atingir (cognição), conhecendo as pessoas reais que estão envolvidas (coordenação) e atuando para encontrar a solução ótima para todos, em sua diversidade de interesses (cooperação).

O bom gestor saberá se orientar por essas necessidades, desenvolvendo a capacidade de ler uma diversidade de opiniões, de vontades independentes, e com a riqueza das visões locais. A descentralização só funciona se forem obedecidos esses parâmetros, senão só teremos falsos debates, crise de representatividade, e visões estreitas (ainda que técnicas) da complexidade social. E isso, infelizmente, todos nós já conhecemos bem.

Os problemas de todos e os nossos

Nesses tempos difíceis, parece servir como uma luva aquela expressão “não tá fácil pra ninguém”. É claro que é mais difícil para uns do que para outros, porém todos, de alguma forma e em algum grau, sentem o impacto. Mas, e depois, somente os mais vulneráveis sentirão os efeitos disso tudo? Evidentemente que não. Mais uma vez, os impactos são diferentes, mas ninguém escapa.

O espaço de um breve artigo não é suficiente para analisar os efeitos gerais de uma crise como essa, mas podemos lançar um olhar sobre os aspectos que envolvem os novos paradigmas que redesenharão os futuros papéis do Estado, das classes produtivas e da sociedade na resolução de problemas públicos.

Estamos falando de consequências duradouras para a política, economia e sociedade, capazes de alterar os programas de vários partidos e grupos políticos. No caso do Brasil é uma oportunidade para a (re)organização da agenda dos principais grupos, que até aqui vinham claudicando entre velhas ideias já renegadas e as novas tendências um tanto indefinidas. Se alguém aposta em ganhos para “um lado”, deve prestar atenção à complexidade dos novos contornos que surgem para assuntos como a flexibilização das leis trabalhistas, mas também com uma forte tendência de expansão dos orçamentos públicos.

Alguns analistas arriscam que os países se voltarão mais para dentro de si mesmos, criando barreiras e controles muito rígidos em relação aos outros. Já é evidente que os controles aumentarão, e que as fiscalizações também serão realizadas sob atenção infinitamente maior do que ocorria até agora. Porém, tudo isso demanda mais burocracia, mais protocolos, mais medidas técnicas e consequentemente mais acordos, mais debates multilaterais, enfim, tudo o que sugere também maior coordenação entre parceiros, e não um simples distanciamento entre os entes nacionais.

Em nível mundial, portanto, a amplamente reconhecida crise da democracia possivelmente será afetada por uma nova orientação do poder, em um cenário sugestivo para que simples e mortais cidadãos, em suas pequenas redes de atuação, sejam cada vez menos capazes de realizar ações significativas diante de uma crise. Após uma série de recentes cisões nas abordagens multilaterais, fatalmente voltará a ser reforçada a noção de governança global.

Quanto a essas análises não nos resta muito mais do que observarmos os desdobramentos, e talvez torcer por um ou outro desfecho. Porém, como entes que agem localmente temos que saber o que continua sendo possível fazer aqui, pois estes realinhamentos criam restrições ao mesmo tempo que abrem janelas de oportunidades.

No Brasil, em decisões políticas recentes verificamos a tensão existente no movimento de centralização-descentralização dos ciclos de políticas públicas. Ficou explícito que a coordenação e definição de agendas que envolvem diferentes níveis e poderes é extremamente problemática em nosso país. Esses problemas nos atingem diretamente, pois remontam à (in)capacidade de agirmos inteligentemente, isto é, de maneira ajustada à realidade local, diante de problemas complexos.

Se, portanto, refletirmos não apenas sobre os problemas que nos atingem, mas principalmente sobre as soluções que nos cabem, fica evidente que precisamos de uma transformação de métodos, pessoas e ideias que farão parte dos processos locais para a solução de crises. De outro modo seremos simplesmente arrebatados por decisões top down (de cima para baixo), geralmente inadequadas para as nossas circunstâncias.

O acompanhamento que o público faz dos processos decisórios aponta para uma realidade em que há cada vez menos tempo e paciência para a politicagem, promovida por pessoas que trazem disputas ideológicas para as discussões objetivas, e que procuram lucrar (ou lacrar) com algum tipo de reconhecimento pela participação. Esses choques de interesses que sempre se apresentam com força deverão ser reformulados, pois haverá uma contínua pressão para que se dê um novo sentido do que seja o “interesse público”. E, principalmente, será intensificada a procura por lideranças hábeis, de comunicação eficiente, manejando dados com destreza, e bem articuladas com as demais lideranças.

A chave está em discernir o que está a nosso alcance, para em seguida sabermos como podemos resolver cada questão, em cada nível, com a coordenação mais realista e eficiente possível. E nada disso é possível sem que se prepare líderes capazes de entender realidades complexas, que vão além de suas especialidades. Isso não significa colocar todo mundo para falar um pouco. Existem métodos para se elaborar políticas e decisões.

O velho desejo por descentralização, por soluções ajustadas às necessidades locais e desenvolvidas por quem conhece os problemas de perto, foi seriamente confrontado nos últimos dias.  O saldo do processo ainda será avaliado de inúmeras formas. Todavia, nunca é demais encontrarmos e fortalecermos as lideranças de várias áreas, e que sejam preparadas para pensar e agir coordenadamente. Há muito espaço para melhorarmos até chegar a próxima crise, ou, no mínimo, para encararmos continuamente as crises de cada dia.