Você convive com quem mente e rouba?

Imagino ser quase impossível encontrar uma pessoa, sobretudo que tenha uma boa condição financeira, que assuma não se importar se algum trabalhador próximo, alguma pessoa próxima, tiver por hábito mentir, roubar qualquer coisa, seja em atitude isolada ou regularmente.

Será fácil encontrar alguém que após comer e beber num bar, percebe na hora de pagar a conta que estão cobrando cervejas a mais, que não foram tomadas, e mesmo assim paga com gosto, com satisfação, e não vê problema algum em ser “roubado” desta maneira?

Em outra situação, será que encontramos alguém que paga com gosto e satisfação um calçado barato, 30 reais por exemplo, que está com costuras tortas, restos de cola nas laterais, pedaços de courvin sobrando, etc.? Provavelmente não.

As simulações acima remetem a aspectos da vida que estão por demais presentes em tudo o que fazemos, nas relações, nos produtos e/ou serviço que compramos, porém nem sempre refletimos sobre eles: HONESTIDADE/COMPETÊNCIA/QUALIDADE.

E não importa a situação financeira: todos nós gostamos e pagamos, produtos e serviços, feitos – pelos outros – de forma competente e honesta.

Se todos temos isto presente em nossa vida, deveria ser uma relação automática a reflexão, mas sabemos que não é: o que eu faço, nas minhas relações humanas, no meu trabalho, que rigor tem, que nível de exigência tenho comigo mesmo, em se tratando de competência e honestidade?

Desde um simples bom dia, um elogio, uma crítica feita por outros, até grandes decisões, grandes ações de trabalho, é possível ver ali estas palavrinhas, ou a ausência delas.

Convém lembrar aqui que honestidade vem pelo esforço e pela educação; já competência vem pelo esforço e instrução.

Por várias evidências, é fácil perceber, os sinais da falta daqueles valores em escolas, em empresas, em associações, em viagens, em casas, etc. indicando claramente que algo está indo muito mal. E o início de tudo é na família.

Famílias com boa situação financeira, onde pais dedicam muito, mas muito mais tempo ao trabalho, ao lazer, ao conforto de uma casa e dão pouca ou nenhuma atenção à educação moral dos filhos; ensinar honestidade dentro de casa não está no radar das maiores ocupações.

Há tempos falei com uma coordenadora de uma escola particular onde só estudavam filhos de classe média e alta e ouvi dela o seguinte: “passo metade do meu tempo “educando” alunos mal- educados”. Difícil imaginar que entre as questões abordadas pela coordenadora sobre a “educação dos filhos dos outros” não estaria a questão da honestidade. E não há porque imaginar que nas escolas públicas seria melhor a situação.

Theodore Dalrymple, no seu livro “A Vida na Sarjeta”, páginas 228/229 revela como aprendeu sobre honestidade com sua mãe, aos 8 anos de idade, lição aquela nunca mais esquecida. Roubou um chocolate na loja da esquina, saboreou e confessou a bravura ao irmão mais velho. Por conta de uma discussão com o irmão, este contou para mãe o roubo do chocolate. Foi obrigado a voltar na loja, pedir desculpas e pagar em dobro (com dinheiro da mesada).

Se não aceitamos conviver com quem nos rouba, com quem mente, com quem nos trapaceia, deveria ser o primeiro e maior de todos os compromissos: ensinar aos filhos a honestidade, a verdade, o que é o certo e o que é errado, pois será isto que dará o rumo na vida deles, que norteará as ações futuras, justamente para que eles – filhos – não se tornem no futuro, aquilo que não aceitamos no presente: pessoas que nos roubam, que mentem.

Sem esta firmeza de pais na educação moral dos filhos, qualquer simples influência externa – na escola, de colegas de grupos, da internet, etc – facilmente poderão se deixar levar pela direção que outros poderão dar, e que nem sempre é boa.

“A mente, assim como a natureza, abomina o vácuo, e se nenhum interesse cativante foi desenvolvido na infância e na adolescência, tal interesse é imediatamente criado com os materiais que tem à disposição”. Theodore Dalrymple, pg 177/178.

Firmeza na educação moral dos filhos, é muito mais importante que dar muitos presentes, que dar do “bom e do melhor”, pois será aquilo que dará boa direção na vida deles. Ou será que encontramos pais que desejam sinceramente que seus filhos sejam na vida adulta: preguiçosos, mentirosos, ladrões, prostitutas, traficantes?

Edésio Reichert é empresário e vice-presidente do IPM

Não espere por serviços públicos de qualidade.

Em meio a tantas divisões, algo que ainda nos une é o fato de sermos todos consumidores. E a realidade é que consumimos cada vez mais serviços. Consumidores mais exigentes e o mercado de serviços em expansão forçam as expectativas em relação ao que é oferecido. As ofertas são muitas e os critérios de escolha vão sendo aperfeiçoados. Quando contratamos exigimos clareza sobre o que exatamente será feito e quanto tempo levará o processo. Também queremos conhecer as garantias de que tudo será realizado da maneira mais eficiente possível (máxima qualidade, menor custo e com mais rapidez). É importante que o prestador deixe claro como podemos reclamar e sermos atendidos no caso em que desejarmos nos manifestar sobre o serviço, e, mais do que nunca, procuramos saber como os outros usuários já avaliaram esse serviço, do mesmo modo que queremos avaliá-lo quando o utilizarmos.

O bom prestador de serviços oferece tudo isso. Não apenas porque o novo público exige, mas porque é fundamento do bom atendimento. Quem sabe que atende bem não tem medo de oferecer transparência e oportunidade de manifestação pública sobre tudo o que faz, pois sabe que isso promove compromisso com a melhoria e não possíveis fragilidades.

Essa é a realidade para quem consome e para quem presta serviços. Em vista disso não podemos deixar de notar que os serviços públicos parecem funcionar fora da realidade.

Os serviços públicos se desenvolvem em público e sob o controle da opinião pública. Ao menos deveria ser assim. Pois para que tudo ocorra dessa maneira é necessário que seja aplicado na prática o conceito de inovação no serviço público. Mas, por que inovação? Porque inovar em gestão pública significa dar TRANSPARÊNCIA, promover CANAIS DE PARTICIPAÇÃO e CONTROLE, bem como criar meios de AVALIAÇÃO e PRESTAÇÃO DE CONTAS, de modo a GERAR IMPACTO. Pois bem, tudo esclarecido, agora é só exigir que os gestores firmem compromisso com base nesses princípios e teremos serviços públicos de qualidade! É claro que não é assim.

Nos serviços privados as práticas consagradas pela exigência cotidiana de aperfeiçoamento viram critérios para a prestação dos serviços, sob o risco de quem não empregar as melhores práticas ser lançado fora do mercado. No serviço público sabemos que a exigência não é a mesma, simplesmente por não termos mecanismos tão dinâmicos e orgânicos como a concorrência para qualificar a oferta. Portanto, notemos, a questão está nos mecanismos que pressionam o bom serviço. E já vou avisando que, no caso do serviço público, esses mecanismos estão apenas distantemente ligados ao voto, pois essa ferramenta democrática é mais viciada por expectativas e paixões do que por uma avaliação objetiva daquilo que o candidato ao cargo pode entregar ou já entregou.

Mas, então, não é pelo voto que afirmo o que desejo em relação aos serviços prestados pelo poder público? Não, não é. O voto é ferramenta da democracia, mas o governo só é de fato democrático quando há transparência dos agentes públicos, possibilidade de participação em todas as etapas das decisões, prestação de contas dos gestores e avaliação constante. E isso não ocorre apenas em algum domingo de outubro a cada quatro anos. Isso precisa ocorrer todos os dias.

Se não é o voto, qual é o mecanismo para pressionar essa inovação da gestão e dos serviços? A Lei 13.460/17, batizada de Código de Defesa do Usuário do Serviço Público, é a ferramenta apropriada para essa finalidade.

Em vigência em todo o país desde junho de 2019 – ou seja, já está valendo, mas falta estar de fato vigorando! – essa lei consagra os princípios norteadores do serviço público; impõe a elaboração de uma Carta de Serviço ao Usuário; oferece instrumentos para garantia dos direitos dos usuários; exige a avaliação continuada dos serviços prestados; cria um ranking das entidades com maior incidência de reclamações e redefine o papel das ouvidorias.

Em vez de simplesmente fazermos muito barulho por compromissos genéricos como ética, mais trabalho, um olhar preocupado e sensível com o povo… enfim, com quaisquer pontos mais do que manjados na retórica de políticos profissionais, temos a oportunidade de impor ações objetivas, que criam uma matriz para todos os serviços ofertados pelos governos de quaisquer esferas. Podemos exigir – por força da lei –  que órgãos e entidades públicas criem sistemas de avaliação nos seguintes aspectos: satisfação do usuário com o serviço; qualidade do atendimento; cumprimento com os compromissos e prazos de prestação; quantidade de manifestações dos usuários; bem como a obrigatoriedade em apresentar as medidas adotadas pela administração para a melhoria e aperfeiçoamento da prestação do serviço. Por obrigação legal a pesquisa de satisfação com os serviços públicos deve ser permanente. Ou seja, já estão caracterizadas as ferramentas que pressionam os serviços públicos para a mesma expectativa que se tem em relação aos serviços privados. E aqui aponto a necessidade disso se efetivar no nível municipal.

Alguém pode pensar que “é mais uma lei”, “isso não adianta, são apenas regras escritas em um papel e aqui é Brasil”, etc. Mas não é sensata essa reação. O que precisamos saber é como a lei pode ser acionada. E aí reside o grande desafio, qual seja mobilizar a sociedade civil organizada, as organizações produtivas, o Ministério Público (responsável pela manutenção da ordem jurídica e fiscalização do poder público), cidadãos e entidades interessadas para atuarem em cooperação técnica com o poder público. É isso mesmo, não se trata de promover um denuncismo, mas de promover uma ética de aprimoramento, e isso depende de todos os envolvidos, sem esquecer de que a Lei 13.460/17 considera como usuários pessoas físicas e jurídicas. Ou seja, precisamos coordenar o debate em vista de ações que consolidem esses conceitos e essa cultura de inovação na gestão e serviços (transparência, participação, prestação de contas e avaliação). Já perdemos um ano, e por isso mesmo é urgente criarmos o clamor necessário para a efetivação da legislação e apresentarmos ao poder público as recomendações de forma qualificada, de modo a assegurar a reflexão e acolhimento por parte dos tomadores de decisão (dos que estão aí e dos que virão).

A Constituição Federal dá direito a qualquer cidadão usuário do serviço público de participar da ação do governo, fazendo reclamações e avaliando a qualidade dos serviços a qualquer tempo. A Lei 13.460/17 foi feita para explicar o que o cidadão pode fazer para ter esses direitos garantidos.

Portanto, temos uma pauta claríssima (modernização da gestão e dos serviços públicos), conhecemos os instrumentos para mover a pauta (a legislação inovadora), e sabemos que as regras só vigoram quando entramos em acordo sobre elas e nos compromissamos com sua realização, isto é, as organizações locais, de cunho social e produtivo, precisam debater isso, qualificar a demanda, cooperar tecnicamente nos estágios de formulação, articulação e execução dos instrumentos de inovação.

Estão dados os caminhos para serviços públicos efetivos, ou seja, que gerem impacto real na vida das pessoas. Já passamos do tempo em que se pensava em “foco no usuário”, agora a exigência é de ter o foco DO usuário, isto é, precisamos saber qual é o impacto que o serviço gerou e assim implantarmos na área pública o que há de mais salutar nas relações de mercado, que é a aprovação do consumidor.

E se alguém pensa que em uma realidade pós-pandemia a modernização é menos urgente do que o investimento em atendimento básico, é porque não entendeu nada, pois é justamente para que esse atendimento seja efetivo, ou seja, ajustado às reais necessidades do usuário dos serviços – que certamente serão ainda mais demandados – que precisamos entender o que as pessoas precisam e querem, permitir que elas participem da elaboração das soluções, avaliar como o gestor usou os recursos e saber se deu resultado. Com recursos escassos e o aumento da população dependente de serviços públicos, não dá para esperar que os gestores continuem garbosos por “ao menos fazer alguma coisa”, sem sabermos se a ação foi efetiva em todas as suas dimensões. O novo público e as novas necessidades impõem gestão e serviços públicos menos intuitivos e analógicos.

Agora você sabe o que exatamente exigir dos serviços públicos. Também sabe que existe um instrumento legal poderoso para mover o poder público na direção da efetividade. O que falta é manejar corretamente esse instrumento, afinal, você já entendeu que não pode esperar por serviços públicos de qualidade.

*Em um próximo artigo esclarecerei sobre como manejar esse instrumento no município, e também trarei detalhes sobre as novas exigências estabelecidas para as ouvidorias.

Amir Kanitz é sociólogo, professor e Diretor Executivo do IPM

Pacto por uma sociedade melhor – I

Ainda estamos nos acostumando às medidas estabelecidas na urgência desse momento de crise sanitária. Evidentemente que o momento é crítico, tanto pelos riscos para a saúde das pessoas, mas também para o sistema de saúde e para o funcionamento da sociedade e sua base econômica. Por muito tempo se desenrolará a discussão sobre a eficácia das medidas, que poderão ser consideradas intempestivas e exageradas, ou ainda se foram justas e adequadas. Certamente não haverá consenso algum sobre isso.

Mas temos que reorganizar a vida. Os planos de retomada já ocupam o panorama de quase todos os setores da economia e sociedade. Cada área reserva desafios e expectativas que são característicos, mas a retomada da “normalidade” é uma questão social e por isso demanda uma perspectiva de envolvimento público.

Não há dúvida de que precisaremos melhorar a participação que temos na vida pública, todos nós, indivíduos, comunidades, associações, empresas e governos. Acreditamos que não apenas oportunidades surgem, mas necessidades se impõem para que atuemos com energia nas seguintes questões:

É necessário, mais do que nunca, estimular uma mentalidade ou cultura de responsabilidade. Não pode ser apenas um tipo de responsabilidade por sanção, isto é, querer “reeducar” o povo por força ou restrições legais. Há como fomentar formas solidárias de ação, com exemplos, com estímulos constantes, e principalmente com fôlego para aceitar um processo mais demorado de mudança cultural, estimulando a prática daquilo que temos de melhor.

Também é hora de fortalecermos campanhas pela qualidade dos serviços públicos, pois deles mais e mais pessoas dependerão depois disso tudo. Esses serviços precisam ser muito mais responsivos, ajustados às realidades locais e eficientes desde sua elaboração até as avaliações de desempenho. O entendimento e aplicação mais efetiva da Lei 13.460 de 2017 (Lei de defesa do usuário de serviço público) já serve como mecanismo de aperfeiçoamento que todos deveriam conhecer e fortalecer, além de outros esforços constantes que podem ser demandados.

Não há dúvida de que precisaremos desenvolver ferramentas de avaliação da gestão pública. Os discursos de defesa e acusação, com base puramente ideológica, precisam evoluir para sistemas que diagnostiquem prioridades sociais, promovendo práticas efetivas de melhoria das gestões públicas, incentivando lideranças políticas a terem melhores desempenhos e não apenas discursos alinhados a determinadas preferências.

Para que ocorra o que apontamos no parágrafo acima é essencial avançarmos no estabelecimento de maior tecnologia na gestão e políticas públicas. E, lembremos, inovar na gestão é desenvolver medidas que envolvam maior participação, baixo custo e alto impacto. Isso resulta em melhores políticas públicas, ou seja, melhores soluções para problemas que, de alguma forma, atingem a todos.

Para que todas essas ações tenham legitimidade será fundamental a criação, manutenção e evolução de mecanismos de participação. Além de atendermos uma demanda cada vez maior pela abertura de canais democráticos para envolvimento das pessoas, entidades e organizações, também se faz necessária a incorporação dos anseios e necessidades da sociedade local. Esse processo é mais legítimo à medida que for realizado com base na compreensão de quem conhece os problemas de fato, isto é, das próprias pessoas em suas comunidades e segmentos. Portanto, capacitar a comunidade para que ela influencie e controle de forma organizada as políticas públicas será essencial para a articulação de um circuito comunidade-gestão-soluções.

Esses nos parece que sejam meios necessários para que se sustente um novo dinamismo econômico e social na comunidade local, e por isso também deveremos conhecer, debater e aplicar em alguma medida a Lei 13.874 de 2019 (Lei da Liberdade Econômica), que pode servir de mecanismo – entre outras ações – para alavancar um crescimento necessário da economia local.

São, portanto, alvos que devemos destacar no horizonte estratégico da sociedade local: cultura de responsabilidade; pressão para a qualidade dos serviços públicos; ferramentas de gestão; inovação nas políticas públicas; mecanismos de participação e estímulo à economia local.

São seis pontos, mas que envolvem três tipos de atores em seu desenvolvimento e execução: gestores públicos, sociedade civil organizada e organizações produtivas.

No próximo artigo falaremos sobre os papéis de cada um desses atores no projeto de uma sociedade melhor, para então podermos destacar os tipos de programas que poderemos promover. Pois, faz parte de qualquer planejamento saber exatamente o que queremos, quem pode fazer e quais são as ações específicas que serão desenvolvidas.