Evoluímos politicamente?

Estamos mais maduros politicamente? Será que nos tornamos mais conscientes da realidade sobre as relações de poder em nossa sociedade?

Não é fácil responder essas questões. A dificuldade está em definir o que seria exatamente essa maturidade e consciência. Certamente não estamos falando simplesmente de “prestar atenção” no que acontece em Brasília. Tampouco se trata do ato de identificar determinadas ideias como adversárias. E muito menos significa a prática ativa de compartilhar memes, posts e notícias políticas nas redes sociais. Consciência política é conhecer as instituições, saber quais são seus potenciais e limites, e daí ser capaz de operar de acordo com essa realidade, balizado pelo conhecimento sobre as pessoas, grupos políticos e poderes que orientam as decisões que atingem a todos. A maturidade política, por sua vez, é o avanço em relação à expectativa que se tem sobre a política. É muito mais do que assumir uma ideologia em detrimento de outras, mas ser capaz de adaptar soluções possíveis para problemas reais em meio a um emaranhado de interesses e valores que formam a sociedade.

Desde 2013 temos ouvido que “o gigante acordou”, que a sociedade, se precisar, vai para as ruas. Acontecimentos demonstraram que, de fato, algumas coisas mudaram, pois políticos foram presos, esquemas criminosos desmantelados, narrativas políticas relativizadas em vez de serem consideradas como o supremo bem. No entanto, essas mudanças parecem ter atingido um limite, pois ainda não há solução à vista para a crise de representatividade, isto é, para o sentimento popular de que os poderes do Estado não trabalham em prol do povo.

Nós acabamos nos provando mais aguerridos nas questões políticas que nos dividem. O envolvimento no processo eleitoral foi intenso –  e ao que tudo indica continuará assim por muito tempo. E isso significa que desenvolvemos uma prática política maior em relação ao dissenso, ou seja, nós nos voltamos com mais energia às controvérsias e divergências.

Mas as questões políticas não se reduzem a disputas pela imposição de determinadas visões de mundo. As decisões políticas também envolvem serviços públicos, gestão de problemas práticos, em operacionalizar os recursos públicos para sanar dificuldades urgentes da população.

Chegamos em um ponto em que todos falam de política, mas parece que ninguém tem soluções políticas viáveis, com planejamento claro e programas de longo prazo.

Estamos presos na armadilha dos discursos e das bandeiras. Consolidar uma identidade política tem seu valor, mas se não passar disso estaremos encarcerados em uma ética tribal e nada mais.

Percebemos a nossa estagnação política (nossa mesmo, do povo) quando temos que tratar das pautas da política prática. Não andamos nem um mísero milímetro nesse aspecto. Todo mundo acaba debatendo o mesmo assunto, a mesma agenda, e ela está lá em Brasília. O resto que espere. Isso é um tipo de participação burra, limitada, alienada. Sofremos de um sério bloqueio para a discussão útil de questões mais próximas de cada comunidade.

Há duas semanas, por exemplo, o Banco Central distribuiu uma nota técnica sobre os projetos parlamentares que se multiplicaram nesse momento de crise sanitária. São propostas que em sua maioria têm cunho populista ou corporativo. Muitas são bem-intencionadas, mas carecem de fundamentação técnica. Uma enxurrada de medidas que, se efetivadas, podem aumentar ainda mais as dificuldades econômicas pelas quais a sociedade já está passando. São apenas intenções, mas que não consideram estudos de impacto para cada medida.

Desse modo notamos que a representação política ainda é extremamente falha, que não sabemos nos reunir e propor, que estamos longe de elaborarmos demandas qualificadas. Um horror!

Todo o tipo de propostas políticas para problemas práticos que afetam brasileiros de carne e osso parecem ficar desimportantes quando esbarram no debate ideológico-partidário. E sempre esbarram.

Desinformação, despreparo, irresponsabilidade e imprudência ainda são a tônica para as propostas políticas nesse país. A própria classe produtiva não está sendo capaz de pautar os debates que deveria. Aliás, como a nota do Banco Central ressaltou, não há diálogo dos parlamentares com setores econômicos, e as legislações que estão sendo gestadas serão, por conta disso, disseminadoras de incerteza jurídica nas atividades produtivas. Mas as organizações precisam evoluir em sua capacidade de relações institucionais, pois já é possível perceber que esperar não vai resolver.

Por que, afinal, alguém em sã consciência acreditaria que as manifestações populares dos últimos sete anos seriam capazes de mudar toda uma cultura política? Se alguém deseja reformar as instituições (ou mesmo romper com elas) tem que estar pronto para oferecer todo um universo de soluções, com mentalidades preparadas e programas claros para ocuparem o espaço dos erros que queremos superar! Não há vácuo na política. O que preparamos para preencher esses espaços?

Por favor, saiam do whatsapp, arregacem as mangas, se envolvam com as políticas públicas reais e locais, pois há tudo ainda por fazer!

Pior que Fake News

Em uma democracia, além dos poderes institucionais (Executivo, Legislativo e Judiciário), convencionou-se chamar de “quarto poder” a imprensa. É, de fato, um poder no sentido de ter alcance fundamental para a formação da opinião pública, sobretudo em sua capacidade de informar sobre as atividades dos governantes.

A opinião pública é o conjunto de concepções gerais mais difundidas e aceitas em uma sociedade. Em uma democracia essas ideias se traduzem em ações e escolhas, ou seja, são essenciais para orientarem a representação que as pessoas pretendem ter no plano da ação pública.

Com o decréscimo da influência de família, religião e comunidade local no modelamento da visão dos indivíduos acerca do mundo que os cerca, orientando suas ações, os meios de comunicação estão ocupando esse espaço, em um processo de séculos que vai desde a criação da imprensa até o acesso ilimitado de informações em nossos celulares. Não apenas “a grande mídia”, mas as redes sociais em especial possuem um poder singular, pela capacidade de difusão e aceitação de seus conteúdos. Portanto, vivemos um fenômeno muito atual, que reordena a cultura através de um novo meio que dispensa, em parte, os antigos. É uma cultura na qual a informação circula em volume e velocidade vertiginosos. As referências e símbolos necessários para orientar as ações dos indivíduos na sociedade provêm, agora, de outras fontes, com outra velocidade e de conteúdos inesgotáveis.

Um dos problemas envolvidos nesse fenômeno é que tal volume de informações não reflete exatamente mais conhecimento, consistência ou diversidade de referências. Pelo contrário, muitas vezes significa um deslocamento da realidade imediata, pois as pessoas são guiadas por assuntos que mobilizam seu grupo específico, sendo pressionadas a tomarem partido e a se sensibilizarem a partir de critérios muitas vezes distantes de sua experiência. Torna-se “importante” aquilo que é repetido e compartilhado por muitos, e justamente por ser repetido por aqueles que combinam conosco acreditamos que é o mais correto. O fluxo das informações é que confere importância ao conteúdo, e não os conteúdos realmente importantes e reais que ganham mais alcance.

Como os conteúdos são definidos

No livro “Acredite, estou mentindo: confissões de um manipulador de mídias”, Ryan Holiday explica com base em sua experiência de renomado editor de portais eletrônicos de sucesso nos EUA, como o potencial em se propagar e conquistar cliques e acessos orienta a escolha dos conteúdos. Quem publica – e isso vale até mesmo para os grandes meios – seleciona o conteúdo na expectativa de ter grande alcance, e é dessa maneira que manchetes são formuladas e tratadas.

Se o objetivo das mídias é captar atenção, fica óbvia a importância de se compreender o comportamento e reações humanas, isto é, ao que reagimos com mais intensidade. Dessa maneira, o que provoca reações mais extremadas, como ódio, indignação ou confirmação das nossas opiniões políticas, será mais acessado e repassado.

A realidade ou veracidade das informações fica em segundo plano, até mesmo porque em grande parte das vezes a notícia nem é lida, mas apenas a manchete, que pode ser um exagero em relação ao conteúdo da matéria. O critério definidor do conteúdo passou a ser em grande parte o impacto que podem causar e não a utilidade e veracidade do conteúdo. Isso coloca todos os envolvidos nessa nova cultura da informação em uma situação de manipulação constante das emoções. Não chegamos a notar, afinal os conteúdos que recebemos combinam com nossas preferências e interesses, que são decodificados por analistas de conteúdo.

Nesse ponto, o essencial é compreender que todos os esforços dos produtores de conteúdos que tenham a finalidade de captar atenção resultam em capacidade de acionar sentimentos mobilizadores. Por conta desse artifício somos ao mesmo tempo agrupados e polarizados conforme a aceitação de determinadas versões, isto é, de acordo com as versões que mais nos agradam.

Os efeitos são claros, pois retrocedemos em relação a algumas conquistas que as democracias liberais proporcionaram. Nas mídias sociais estamos agrupados em segmentos que reforçam mutuamente suas opiniões, agravando um dado psicológico chamado de disfunção narcotizante, ou seja, passamos a confundir a agitação dos meios de comunicação com a vida real. O desespero, as acusações e mesmo o sarcasmo das redes sociais passam a forjar nossa visão de mundo, mesmo que isso contradiga a nossa realidade cotidiana – “homens são estupradores em potencial”, “empresários são exploradores”, “brancos são racistas”, partidários de determinadas ideias são todos maus ou imbecis, etc. Tudo isso se cristaliza no enorme volume de informações que recebemos e repassamos, mas não se confirma na presença de pessoas reais que se identificam com esses grupos, pois evidentemente não são todos maus, preconceituosos, violentos, imbecis, etc. Retornamos a uma ética tribal, em que não vemos mais indivíduos, mas rótulos que definem “o outro”. Isso tudo é reforçado pelo volume de informações ajustados à nossa personalidade.

O fenômeno conhecido como “viés de confirmação” distorce a nossa visão da realidade, pois acomoda toda a realidade – que é complexa, multivariada, muitas vezes surpreendente e mutável – de acordo com nossas preferências. É uma tendência humana crer que todos os dados que reunimos confirmam nossas crenças, porém a verdade é que somente reunimos tais dados e os chamamos de evidências justamente porque se alinham às nossas crenças!

Portanto, quando nós nos estabelecemos confortavelmente em redes sociais, com amizades e debates completamente alinhados à nossa visão de mundo, organizados para atacar as ideias diferentes, de modo a tratá-las todas como adversárias e irremediavelmente idiotas, ficamos mais e mais desinformados, apesar do grande volume de informações que circulam por lá. É possível concluir que não é o número massacrante de posts, vídeos e comentários circulando em nossos nichos que pode nos esclarecer sobre os fatos, pois isso tudo apenas satisfaz o nosso costume de ver tais fatos por determinado ponto de vista.

Talvez a pior característica das redes sociais nem seja o tempo que elas nos tomam, ou as futilidades lá muito comuns, mas o fato de podermos escolher a realidade que queremos encarar, ou seja, não é a realidade, mas a nossa versão preferida dela. A análise cuidadosa desse fenômeno nos permite entender que as fake news são muito mais do que simples mentiras, mas são formas de delírios que ganham força justamente na fragilidade daqueles que são incapazes de viver a realidade mais próxima.  

A mentira não está apenas nos conteúdos falsos. Podemos viver de mentira à medida que desviamos nossa atenção da realidade de nossas famílias, comunidades e cidades, para voluntariamente nos deixarmos conduzir por disputas que não podemos verificar de perto, e muito menos influenciar os rumos. Preferimos nos posicionar em grupos temáticos virtuais, e assim deixamos de olhar para as soluções que poderíamos elaborar, e talvez melhorar a realidade que nos cerca. Mas acreditamos estar ao lado da razão, simplesmente por repassarmos conteúdos que foram elaborados com a única finalidade de serem compartilhados massivamente.

O problema não é apenas a Fake News que você viu em um grupo de internet. O problema é que você fica lá em vez de viver a sua realidade.

Como se moldar à nova economia após a covid-19?

O Estado de S. Paulo – 25 de Maio de 2020

LEANDRO MIRANDA RESPONSÁVEL PELA ÁGORA INVESTIMENTOS E DIRETOR EXECUTIVO E DE RELAÇÕES COM INVESTIDORES DO BRADESCO.

Cada vez mais países abrem ou preparam-se para abrir a sua economia paulatinamente. O mundo quer voltar a girar, ser produtivo, ser livre. Mas o mundo não é mais o mesmo de alguns meses atrás e deverá transformar-se ainda mais nos próximos meses até estar pleno novamente.

Naturalmente, questionamentos fundamentais surgem. Como já foram e serão ainda mais afetados os hábitos sociais, de consumo e de investimento? Como foram e serão ainda mais afetados a renda e até mesmo o emprego? Como está e estará a saúde financeira e os negócios das empresas? Algumas empresas se fortaleceram, outras se enfraqueceram, outras morreram e outras novas surgiram e essa dinâmica deverá acentuar-se um pouco mais antes de começar o processo de recuperação. Processo evolutivo típico.

Mas quem serão os vencedores, aqueles que sairão mais fortes e melhor adaptados? Quem serão os novos líderes políticos, empresariais, banqueiros e sociais? Quem serão aqueles que terão a visão, trarão aspiração, inspiração, transpiração e liderarão nossos países, empresas, bancos, seus colaboradores e comunidades? Muito provavelmente, não serão aqueles cheios de certezas, convicções porque o que estamos vivendo é inédito e repleto de incertezas e novas tendências. Também não serão os egocêntricos porque os novos líderes trabalharão para os que precisam dele, serão ferramentais para aqueles que precisam deles. Também não serão os hierárquicos, centralizadores porque são lentos e a dança das cadeiras já começou numa velocidade estonteante. E não serão aqueles individualistas que tendem a resolver tudo sozinho porque ninguém sozinho terá todas as respostas.

Os novos líderes serão agregadores, terão a habilidade de escolher times complementares com pontos de vista diferentes porque o ponto de vista é a vista a partir de um ponto e todos serão necessários para interpretar os novos tempos, serão humildes para escutar atentamente muitas opiniões díspares, serão serenos para avaliar e tomar as melhores decisões e horizontais para serem rápidos na execução.

Os novos líderes precisarão ser empáticos para conseguir se colocar na posição dos diversos tipos de colaboradores e de clientes e fazer com que se engajem pelo propósito e pela identificação de princípios e valores, pelo mesmo DNA de alguém que se importa. Essa nova liderança será exercida através do que chamo de Gestão Participativa onde todos os stakeholders são não só o fim, mas o meio e também a origem das decisões. As relações serão esféricas. Já que não sabemos o que nos espera, como diria Bruce Lee, sejamos como água. “Não se coloque dentro de uma forma, se adapte e construa a sua própria, e deixe-a expandir, como água. Se colocarmos a água num copo, ela se torna o copo; se a colocar numa garrafa, ela se torna a garrafa. A água pode fluir ou colidir. Seja água, meu amigo”.