A elite brasileira aparece como a sexta pior no Índice de Qualidade das Elites, um relatório abrangendo 32 países e produzido pela Fundação para a Criação de Valor. Estamos atrás de países como Cazaquistão e Botswana. A boa notícia é que a nossa elite não é pior que a da Argentina.
É importante entendermos que o estudo define elite como “grupos coordenados que demonstram alguma excelência em criar e acumular riquezas”. Todas as sociedades possuem esses grupos, e não podemos menosprezar sua importância, sobretudo quando atuam na vanguarda do desenvolvimento. Mas, quando vemos a elite brasileira tão mal avaliada precisamos entender quais são os critérios usados na análise.
Há uma diferença substancial entre elites que beneficiam a sociedade e as elites que se beneficiam das instituições do país. As primeiras fortalecem as instituições, gerando um valor que é socialmente desfrutado. No nosso caso, as elites se apropriam de favores e privilégios, destruindo a confiança que as instituições deveriam sustentar, e por isso são chamadas de elites “extrativas”.
Exemplos disso são o nosso sistema tributário covarde que pressiona quem ganha menos, pois aqui são as classes baixas que pagam proporcionalmente mais para consumir o básico. Até mesmo a concorrência de mercado muitas vezes desaparece quando grandes players conseguem proteções tarifárias e outras situações privilegiadas. O judiciário, por usa vez, faz o jogo da impunidade quando permite recursos sem fim a quem tem dinheiro para adiar as sentenças até prescreverem as penas. E por aí vai.
Talvez a nossa maior e mais frustrante crise seja essa: os grupos mais qualificados não estão organizados para contribuir com o desenvolvimento de longo prazo da sociedade, mas estão apenas empenhados em garantir um ganho imediato para si mesmos.
E isso não é motivo para dizer que “é culpa do Capitalismo!”. Não. Pois há países riquíssimos, como mostra o estudo citado – os líderes são Alemanha, Suíça e Cingapura – nos quais as elites articulam esforços para que serviços públicos funcionem cada vez melhor, para que as instituições do Estado tenham mais transparência, equilíbrio e ofereçam segurança jurídica a toda a sociedade; para que a concorrência do mercado seja uma oportunidade de mobilidade social e não um vetor de desigualdade intransponível.
Infelizmente, aqui nós ficamos com a pior parte do poder de influência das elites: as instituições foram capturadas por grupos descolados da realidade do povo e de suas principais necessidades. Assim foram consolidados privilégios para algumas castas que manejam os poderes em seu exclusivo benefício, impedindo que os interesses e anseios da população sejam representados nos planos de ação e reformas de longo prazo.
É por isso que as instituições não nos representam e há tempos sofrem enorme descrédito. Porque foram capturadas e não servem a nenhum interesse popular. As instituições infelizmente se tornaram instrumentos de injustiça, pois inclinam a balança para o lado de algumas elites sem compromisso com o país.
Mas, a saída não é destruir as instituições, como alguns desejam e até defendem. Como eu disse, há exemplos de como elas podem funcionar melhor. Por outro lado, não há nenhum exemplo de como o enfraquecimento institucional possa gerar efeitos positivos.
A única saída realista (e a realidade nunca é simples) é agir nas instituições. É impelir uma elite que ocupe seus espaços com valores que também representem a maioria da população. Isso leva tempo. É trabalho racional e organizado.
Para isso precisamos da atuação de uma parte da elite que ainda se encontra parcialmente adormecida. Da elite que produz e se preocupa com o país, mas que sempre preferiu ficar de fora dos movimentos e ideias políticas – não se trata de política eleitoral ou reações desarrazoadas em busca de salvação nacional, mas de agendas que abracem os problemas de todos. Precisamos mais do que nunca dessa elite tão capaz de criar riquezas, mas que não é organizada para se engajar nas mudanças que o país precisa. O que nos falta é uma elite que lidere o país para fora do atoleiro.
Resumindo, a elite precisa exercer liderança legítima. Bob Chapman, CEO e presidente do conselho de administração da Barry-Wehmiller, empresa norte-americana de fornecimento de peças e tecnologia, se tornou uma referência mundial no esforço para que ambientes corporativos compreendam a sociedade e suas instituições. Como o próprio Chapman diz, carecemos de uma “liderança que se estenda para além das paredes das empresas”.
Quem gera valor econômico influencia todas as áreas da sociedade. Quem lidera gera impacto sobre os liderados. Quem se destaca cria exemplo. E o exemplo que vem de cima, aqui no nosso país, não é exatamente de preocupação com o aprimoramento das instituições nacionais de forma ampla. Quando as elites mostram alguma preocupação com questões pública, esta é voltada a destravar seus próprios embaraços, mas não para aprimorar sistemas que beneficiam a todos.
A elite é vanguarda. Para o bem ou para o mal. Ela ajuda a aprofundar ou tratar a doença do interesse próprio destrutivo. As elites bem classificadas são as que contribuem com modelos organizacionais que dão esperança e estimulam que todos joguem não apenas jogos competitivos e indiferentes, mas jogos cooperativos e bem integrados.
A história mostra que é por essa via que as coisas acontecem. É por isso que precisamos desesperadamente de uma elite com a cultura de planejar e agir na criação de um bom ambiente político, econômico e social.
Há ótimas pessoas nas nossas elites, o que falta é o esclarecimento e preparo necessários para atuar no longo prazo em questões sociais e políticas.
O que a parte boa das nossas elites precisa entender é que olhar para os seus ganhos econômicos imediatos é muito superficial, pois, como insistia o sociólogo Robert Nisbet, “as raízes do desenvolvimento econômico estão nas ideias e comportamentos que não são essencialmente econômicos”. Ou seja, o sucesso econômico no longo prazo depende da construção dos pilares de uma sociedade na qual vale a pena viver.
Isso é uma construção. Quem constrói isso não são pessoas que aceitam ir bem em um lugar que vai mal, mas é um esforço orientado pelos mais capazes e engajados em defender valores que são comuns a toda a sociedade.
É por aí que a mudança vem.
Amir Kanitz é sociólogo, professor e secretário-executivo do IPM
