Nesses tempos difíceis, parece servir como uma luva aquela expressão “não tá fácil pra ninguém”. É claro que é mais difícil para uns do que para outros, porém todos, de alguma forma e em algum grau, sentem o impacto. Mas, e depois, somente os mais vulneráveis sentirão os efeitos disso tudo? Evidentemente que não. Mais uma vez, os impactos são diferentes, mas ninguém escapa.
O espaço de um breve artigo não é suficiente para analisar os efeitos gerais de uma crise como essa, mas podemos lançar um olhar sobre os aspectos que envolvem os novos paradigmas que redesenharão os futuros papéis do Estado, das classes produtivas e da sociedade na resolução de problemas públicos.
Estamos falando de consequências duradouras para a política, economia e sociedade, capazes de alterar os programas de vários partidos e grupos políticos. No caso do Brasil é uma oportunidade para a (re)organização da agenda dos principais grupos, que até aqui vinham claudicando entre velhas ideias já renegadas e as novas tendências um tanto indefinidas. Se alguém aposta em ganhos para “um lado”, deve prestar atenção à complexidade dos novos contornos que surgem para assuntos como a flexibilização das leis trabalhistas, mas também com uma forte tendência de expansão dos orçamentos públicos.
Alguns analistas arriscam que os países se voltarão mais para dentro de si mesmos, criando barreiras e controles muito rígidos em relação aos outros. Já é evidente que os controles aumentarão, e que as fiscalizações também serão realizadas sob atenção infinitamente maior do que ocorria até agora. Porém, tudo isso demanda mais burocracia, mais protocolos, mais medidas técnicas e consequentemente mais acordos, mais debates multilaterais, enfim, tudo o que sugere também maior coordenação entre parceiros, e não um simples distanciamento entre os entes nacionais.
Em nível mundial, portanto, a amplamente reconhecida crise da democracia possivelmente será afetada por uma nova orientação do poder, em um cenário sugestivo para que simples e mortais cidadãos, em suas pequenas redes de atuação, sejam cada vez menos capazes de realizar ações significativas diante de uma crise. Após uma série de recentes cisões nas abordagens multilaterais, fatalmente voltará a ser reforçada a noção de governança global.
Quanto a essas análises não nos resta muito mais do que observarmos os desdobramentos, e talvez torcer por um ou outro desfecho. Porém, como entes que agem localmente temos que saber o que continua sendo possível fazer aqui, pois estes realinhamentos criam restrições ao mesmo tempo que abrem janelas de oportunidades.
No Brasil, em decisões políticas recentes verificamos a tensão existente no movimento de centralização-descentralização dos ciclos de políticas públicas. Ficou explícito que a coordenação e definição de agendas que envolvem diferentes níveis e poderes é extremamente problemática em nosso país. Esses problemas nos atingem diretamente, pois remontam à (in)capacidade de agirmos inteligentemente, isto é, de maneira ajustada à realidade local, diante de problemas complexos.
Se, portanto, refletirmos não apenas sobre os problemas que nos atingem, mas principalmente sobre as soluções que nos cabem, fica evidente que precisamos de uma transformação de métodos, pessoas e ideias que farão parte dos processos locais para a solução de crises. De outro modo seremos simplesmente arrebatados por decisões top down (de cima para baixo), geralmente inadequadas para as nossas circunstâncias.
O acompanhamento que o público faz dos processos decisórios aponta para uma realidade em que há cada vez menos tempo e paciência para a politicagem, promovida por pessoas que trazem disputas ideológicas para as discussões objetivas, e que procuram lucrar (ou lacrar) com algum tipo de reconhecimento pela participação. Esses choques de interesses que sempre se apresentam com força deverão ser reformulados, pois haverá uma contínua pressão para que se dê um novo sentido do que seja o “interesse público”. E, principalmente, será intensificada a procura por lideranças hábeis, de comunicação eficiente, manejando dados com destreza, e bem articuladas com as demais lideranças.
A chave está em discernir o que está a nosso alcance, para em seguida sabermos como podemos resolver cada questão, em cada nível, com a coordenação mais realista e eficiente possível. E nada disso é possível sem que se prepare líderes capazes de entender realidades complexas, que vão além de suas especialidades. Isso não significa colocar todo mundo para falar um pouco. Existem métodos para se elaborar políticas e decisões.
O velho desejo por descentralização, por soluções ajustadas às necessidades locais e desenvolvidas por quem conhece os problemas de perto, foi seriamente confrontado nos últimos dias. O saldo do processo ainda será avaliado de inúmeras formas. Todavia, nunca é demais encontrarmos e fortalecermos as lideranças de várias áreas, e que sejam preparadas para pensar e agir coordenadamente. Há muito espaço para melhorarmos até chegar a próxima crise, ou, no mínimo, para encararmos continuamente as crises de cada dia.
